A PRIMEIRA ESTRELA CADENTE
Era uma vez um anjo, chamado Adriel, que por amar um mortal, foi condenado a um terrível castigo. Suas asas, que eram grandes, belas e radiantes foram quebradas e despedaçadas e o anjo foi banido do Horizonte, lugar em que moravam seus pais e irmãos.
Por muito tempo, o anjo vagou sozinho pela terra, sendo ignorado pelos seus irmãos celestes e temido pelas pessoas comuns. Apesar do temor e da ingratidão, Adriel sempre procurou ser bondoso com as pessoas e guardava sempre uma lembrança, mesmo que amarga, das pessoas que conhecia. Como nasceu da centelha divina, ele não sentia fome, nem sede e não precisa respirar, nem dormir. Porém não havia alívio para a dor que se originava de suas asas fraturadas, nem para a solidão e tristeza que tomava conta de seu coração. E o seu sofrimento era maior porque ela desconhecia o paradeiro de seu amado, mas o desejo de reencontrá-lo era o que dava forças ao anjo para perseverar diante das dificuldades.
Quando o Sol, com toda a sua imponência resplandecente, beijava a linha do horizonte, o anjo fazia uma prece silenciosa, desejando voltar para seu lar, mas as suas orações sempre foram ignoradas. E uma lágrima carregada de melancolia rolava como cristal, pela face do anjo, quando a noite cobria o céu com sua mortalha sombria e as estrelas bailavam cintilantes pela abóbada celeste.
O anjo já havia percorrido o mundo inteiro e certo dia, quando o crepúsculo novamente se aproximava, ele notou a presença de um homem muito idoso que parecia caminhar em sua direção. Por um instante, o ser celestial fez menção de aproximar-se, mas com medo de ser rejeitado, decidiu se afastar o mais rápido que pôde. Neste momento, seu coração foi tocado por uma voz familiar:
- Adriel? É você? Espere por favor! Passei muitos anos procurando por você. Soube que fora banida de seu lar, simplesmente porque você cometeu o pecado de me amar. Por favor, perdoe-me por condená-la a castigo tão terrível.
Atrás do homem, o anjo viu um belíssimo crepúsculo vespertino. O Sol já havia se recolhido e o céu estava pintado com uma tonalidade de azul-escuro de beleza impar e a lua minguante, quase nova dividia o céu com poucas, mas radiantes, estrelas. E novamente Adriel chorou, mas desta vez era uma lágrima de alegria porque não estava mais sozinho, pois havia encontrado o seu amado. E ignorando a dor de suas asas partidas, ele correu em sua direção e um abraço carregado de ternura e emoção marcou o reencontro. E a voz de Adriel, proferiu as seguintes palavras com a voz embargada pela emoção:
- Não há porque pedir perdão, meu amor. Foi a esperança de reencontrá-lo que deu-me forças para suportar a dor do meu exílio.
Para o espanto de Adriel, o homem olhou em seus olhos, abriu um sorriso e morreu em seus braços carregando a expressão da mais pura felicidade em sua face. E a felicidade do anjo, desfez-se em grandes lágrimas. E quando elas banharam o corpo recém-falecido de seu amado, uma luz intensa, que obliterou a noite, envolveu os corpos dos dois e cegando o anjo.
Quando recuperou a visão, Adriel percebeu que a o crepúsculo ainda não havia acabado e que o cadáver do homem havia desaparecido. Então ela olhou para cima e viu seu amado em uma forma espectral. Seu rosto não apresentava nenhum sinal de idade avançada, ao contrário, o semblante dele era o mesmo de quando os dois se conheceram pela primeira vez, ostentando toda a beleza da juventude de um rapaz que mal alcançara a idade adulta. E sob o olhar de Adriel, o homem foi voando em direção ao horizonte. No meio do caminho ele se virou, estendeu o braço direito e chamou pelo anjo:
- Venha, meu amor. Está na hora de você voltar para sua casa.
E os olhos de Adriel encheram-se novamente de lágrimas tristes:
- Não posso voltar. Minhas asas estão quebradas. Como irei voar?
E como um sorriso, o homem respondeu:
- Você nunca precisou de asas para voar. A determinação em lutar pela concretização dos sonhos, a bondade do coração e a força do amor verdadeiro. Essas sim, são as verdadeiras asas nos permite voar e alcançar o horizonte e as estrelas. Venha comigo!
Adriel então fechou os olhos e abriu seu coração. Lembrou-se de seus pais celestes, de seus irmãos angelicais, das inúmeras pessoas que conheceu em seu exílio, das coisas boas e ruins que viveu. Sentiu seu corpo muito leve, como se fosse uma pluma sendo carregada por uma leve brisa. Quando sentiu uma mão tocando a sua, abriu os olhos e viu o rosto de seu amado sorrindo. Olhou para baixo e viu a terra por onde andou por tanto tempo. Estava voando de verdade, tão alto que podia tocar as estrelas. Estava finalmente voltando para casa. E comovido Adriel deixou cair uma última lágrima, feita da mais pura alegria. E esta lágrima tornou-se a primeira estrela cadente que riscou o céu noturno.
E desde aquela noite, nem Adriel, nem seu amado, nem as pessoas que estavam dentro de seu coração, conheceram a tristeza novamente.