A CAPELA DOS OSSOS
Um raio de luz, tímido e pálido, rompe a escuridão perpétua da prisão onde estou confinado. Sua luminosidade é tão frágil que tudo que ela me permite vislumbrar é uma ínfima parte das correntes farpadas que mantém meu corpo agrilhoado a meu cárcere. Com imensa dificuldade, levanto dolorosamente a cabeça e procuro pela origem da insidiosa claridade. Percebo então, que sua origem é uma pequena fresta no teto, mais precisamente em um ponto acima da minha cabeça. Apesar do frio dilacerante do local, que por um período de tempo incontável me aflige, o pequeno ponto do meu corpo que é tocado pela luz é subitamente aquecido. Neste momento, mesmo sendo contrário a minha vontade, meu coração volta a bater em ritmo celerado. Em resposta aos violentos espasmos cardíacos, as correntes – forjadas com um tipo de ferro enferrujado e enegrecido – que envolvem meu corpo se contraem em um abraço torturante, enterrando ainda mais profundamente seus afiados espinhos na minha já lacerada carne. E meus gritos surdos rompem, uma vez mais, o silêncio do sepulcro carcerário, perdurando até o momento em que as trevas finalmente obliteram a vil luminosidade.
No momento em que a invencível mortalha da escuridão cobre completamente o aposento, meu coração finalmente volta a bater em ritmo normal e as correntes encantadas que são extremamente sensíveis a qualquer tipo movimento corporal, aliviam a pressão intensa que exerciam sobre o meu maltratado organismo. Quando a sensação de dor abaixa novamente a níveis toleráveis, meu cérebro começa a pensar, intrigado, sobre a misteriosa luz que invadiu meu cárcere. E no meio dos meus pensamentos, tento a todo custo manter meu coração tranqüilo, temendo que a taquicardia retorne. O receio que tenho é ainda mais compreensível porque, em meio aos meus lancinantes gritos de angústia, juro ter escutado a inconfundível melodia de um pranto feminino. E em todo o mundo conhecido, seja na terra, na cúpula celeste ou nos inalcançáveis domínios do horizonte, existe somente uma entidade capaz de verter lágrimas de pura luz. E esta mesma entidade foi a responsável pela minha punição, que é permanecer agrilhoado por toda a eternidade neste local de horror inominável. Por desígnio dela fui condenado à prisão e a tortura perpétua por ter cometido o maior dos pecados: amar.
Junto com as lembranças amargas do passado, vem o sono. Meu corpo exaurido pelo sofrimento recém-recebido clama por descanso e sem demora minha consciência é transportada para o reino onírico. A escuridão, que é ao mesmo tempo minha companheira de martírio e minha vigilante carcereira, parece-me lançar um invisível olhar triste a medida que se despede mim. Eu compreendo seu pesar, porque ambos sabem que o me espera quando eu adentrar os domínios de Morfeu. Faz parte da minha punição ser privado dos sonhos bons e reviver a cada noite o mesmo horrível pesadelo. Um mau sonho, que na verdade é real e, que mais uma vez se repete no momento em que atravesso a fronteira do reino dos sonhos.
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Estou cego e assustado por não saber onde estou. Não consigo abrir meus olhos devido a uma fortíssima luminosidade que incide sobre mim e por isso tento me arrastar para qualquer lugar que me afaste da luz. Infelizmente meus esforços são completamente inúteis porque percebo que estou suspenso no ar. E um sentimento de impotência e desamparo cresce vertiginosamente em meu íntimo, quase rompendo o meu peito. Porém antes que o desespero arranque lágrimas de meus olhos cerrados, meus ouvidos captam o som da mais bela e mais melodiosa voz que já existiu. Posso sentir uma tênue a agradável brisa carregar as doces palavras de lábios invisíveis até mim, refrescando tanto meu corpo quanto espírito. E como se um feitiço épico fosse conjurado sobre mim, o medo e a incerteza foram banidos do meu coração para as profundezas do esquecimento. A tranqüilidade que agora percorre cada fibra do meu corpo é potencializada quando percebo que a luz fulgurante diminuiu subitamente de intensidade. Hesito em abrir os olhos, mas sou encorajado pela graciosa voz que parece estar muito próxima.
No momento em que minhas pálpebras se levantam, vejo em toda a sua plenitude, uma entidade cósmica, de perfeitas formas femininas, envolta em um manto cravejado de estrelas cintilantes. Seu braço esquerdo está erguido e sua mão aberta, de forma que uma sombra é projetada sobre mim bloqueando parcialmente a luminescência solar. A beleza de sua face é tamanha que não consigo suportar a comoção extrema. Caio ajoelhado perante sua majestosa presença, com lágrimas involuntárias descendo os olhos. Posso sentir o ritmo frenético e incontrolável das contrações do meu músculo cardíaco. Meu corpo inteiro treme vigorosamente e não consigo formular nenhuma palavra coerente. Minha mente tenta processar e ordenar racionalmente todo o turbilhão de sensações e efeitos físicos que tomam conta de mim. Imerso em pensamentos, tentando entender a situação, não percebo a majestosa figura feminina ajoelhar-se diante de mim. Com a sua delicada mão direita ela toca em meu rosto secando as lágrimas que fluem pela minha face e antes que eu possa esboçar qualquer reação, sinto seu corpo quente e aconchegante abraçar o meu. E em silêncio ficamos abraçados por muito tempo. Mais do que nossos corpos, nossos corações se uniram neste momento e sou tomado por uma sensação de êxtase que nunca mais pude sentir novamente. Durante o abraço, eu desejo em silêncio preservar para toda a eternidade a magia deste momento e prometo que sacrificaria minha vida, se necessário, para fazê-la feliz. Depois de alguns minutos intermináveis, o abraço é desfeito e mesmo quase paralisado por um imensurável nervosismo, reúno coragem suficiente para perguntar o nome dela. E a sua resposta, vinda na forma de palavras doces e alegres é que determina o início da nossa tragédia: “Eu sou sua mãe. Você foi concebido por mim para realizar uma importante missão”.
Após essas palavras a claridade solar volta ao seu ápice, cegando-me novamente.
Dotado de ínfima parcela da centelha divina, meu corpo já possui a o ápice da compleição física e mental, mas devido à minha inexperiência e juventude, sou obrigado a empreender um árduo e intensivo treinamento a fim de seguir com perfeição os desígnios de minha amada mãe. Por muitas vezes levo meu corpo, meu espírito e minha mente além dos limites suportáveis, entretanto meu sacrifício é mais do recompensado quando vejo minha amada retribuir minha dedicação com um sorriso ou com o cuidado de minhas feridas. Ao fim do sétimo dia, percebo que o fruto de meu treino está maduro e incendiado por uma intensa alegria, corro o mais rápido possível em direção da torre de mármore onde reside a minha amada. Enquanto venço a distância que nos separa, formulo em minha mente a gloriosa cena vindoura: ao receber a notícia de que estou pronto para cumprir a missão, minha mãe me abraça com força e alegria. Em seu olhar uma mistura de felicidade, admiração e amor. Posso até sentir os nossos lábios próximos, quase se tocando…
Retorno à realidade no momento em que abro a imensa porta-dupla de esmeralda que permite o acesso ao salão principal da torre. A cena que tinha acabado de imaginar é estraçalhada em pedaços irreconhecíveis, quando vejo a minha amada progenitora sentada em na solitária cadeira que decora o aposento. Seu corpo está curvado para frente e as pontas de seus longos e sedosos cabelos tocam o chão. Não consigo vislumbrar seu rosto que jaz oculto atrás de suas mãos. Ao perceber a minha presença ela se vira para mim e vejo sua face, outrora radiante, obscurecida por uma grande tristeza. Meu coração se aperta fortemente ao vê-la neste estado, e faço juras de tormento eterno a quem ousou entristecer a minha amada. Enlaço seu corpo com um forte abraço e peço a ele que me conte o que aconteceu. É claramente perceptível tanto o bater celerado do seu coração divino quanto o seu esforço em conter o choro. E abraçada a mim, ela conta, de maneira relutante, o motivo de sua tristeza.
Certo dia, durante o fim do crepúsculo vespertino, ouvi uma breve prece direcionada a mim. Para uma entidade com meu status divino, essa era uma ocorrência trivial, porém esta oração em especial tocou-me de uma maneira que não sei como explicar. O autor de tal reza, não era um dos meus inúmeros sacerdotes ou devotos habituais, mas sim um homem simples que simplesmente disse: ‘Deusa do amor e da misericórdia, perdoai-me por não saber as orações que seus clérigos proferem, mas gostaria que soubesse que sou imensamente grato por você existir e por aquecer meu coração todas as noites’. E a sua voz estava carregada de uma emoção e ternura tão grandes que fiz questão de conhece-lo a todo custo.
Como você sabe, filho meu, as divindades do Horizonte são proibidas de pisarem em solo terreno, por isso necessitei forjar um acordo com o poderoso Morfeu, a fim de que pudéssemos nos encontrar em um recanto secreto do reino onírico. E foi através deste artifício que pude vislumbrar o semblante daquele mortal pela primeira vez. E nós nos apaixonamos perdidamente a partir daquele momento. Desde que abdiquei voluntariamente da minha humanidade em troca da ascensão divina, nunca mais tinha sentido arder em meu coração a chama fulgurante do amor. Durante o final do crepúsculo, ouvia sua voz me chamando para o jardim secreto do Sonhar e todas as noites, nós éramos embalados pelas canções secretas que os bardos sonhavam e nossos corpos e espíritos compartilhavam o mesmo espaço e tempo. Saboreei com grande prazer a felicidade daqueles momentos, quando esquecia por um momento de ser deusa e voltava a ser uma jovem adolescente que experimentava seu primeiro e inesquecível amor.
Mas inebriada com o saboroso néctar desta sensação fui golpeada de maneira ainda mais dolorosa, quando, certa noite, o meu amado não apareceu em nosso local secreto. E uma infinidade de sentimentos, como esperança, angústia, medo, expectativa, decepção, preocupação e mágoa, foram meus companheiros naquela noite solitária. E a mesma coisa aconteceu nos três subseqüentes. No quarto dia, cansada de esperar, procurei Thanatos, soberano da morte e Morfeu a fim de obter informações sobre o paradeiro de meu amado, porém minha angústia foi intensificada quando ambos me disseram que ele não havia entrado em seus domínios. E desde então, vivo angustiada, com a saudade de meu amado dilacerando meu ser. Por isso, filho meu, é que você foi concebido. Acredito que você esteja finalmente pronto para a sua missão. Procure por meu amado, porque sinto tanto a falta dele. Quando encontrá-lo, diga a ele que eu ainda o amo e que espero reencontrá-lo novamente.
Após ouvir com atenção cada uma de suas palavras, sinto meu corpo estremecer por inteiro e a dor perfurante de uma lança trespassa impiedosamente o meu peito. E tamanho é o desconforto provocado por tala revelação que deixo escapar um grito gutural de frustração e pesar. E uma impiedosa tormenta de sentimentos estranhos que jamais tinha experimento, ascende no horizonte da minha consciência. Como pode ser possível que o amor, que é tão doce e tão puro, tão poético e tão belo, cause tamanho sofrimento? Minha alma ruge ao ver o estado de desamparo de minha mãe, assim como entoa um lamento terrível devido ao meu coração estilhaçado, por saber que o amor mais puro e sincero de minha amada não é dedicado a mim. E pela primeira vez em minha existência, a ira se apossa de mim e desejo trazer a maior das misérias ao mortal que magoou minha mãe. Porém, lembro-me da promessa secreta que fiz a ela, quando nos abraçamos pela primeira. Faria ela feliz a qualquer custo, e por mais que fosse terrível a dor em fazer com que ambos se reencontrassem e pudessem se amar novamente, não poderia jamais negar a missão que me foi confiada. Afasto-me de seu corpo e tento inutilmente olhar em seus olhos, entretanto desvio o olhar para baixo pois temo encontrar a imagem do mortal gravado nas retinas cristalinas da minha amada. De qualquer forma, reúno forças interiores suficientes para abri um inseguro sorriso de alento e digo a minha adorada para não se entristecer porque percorreria cada centímetro dos campos terrestre em busca do mortal. E minha deusa, mãe e objeto de meu amor, através de um quase inaudível sussurro, profere o nome do humano. Lanço um olhar para a noite, onde a lua minguante resplandece na abóbada celeste cortejada pelas estrelas e lançando meu corpo através da janela, alço vôo em direção aos reinos terrestres. E enquanto eu deixo o horizonte, a morada dos deuses, para trás, eu tento afastar a o ciúme, a mágoa e a imagem triste da minha deusa, repetindo em voz alta a minha promessa: “farei minha amada feliz mesmo que isso custe a minha própria felicidade”.
Anos de buscas improdutivas se passam desde o início da minha empreitada. Meu corpo, minha mente e minha força de vontade estão praticamente exauridos depois de incontáveis quilômetros percorridos e igualmente inumeráveis insucessos. A cada fim de crepúsculo, quando rezo à minha amada deusa, a minha vergonha se intensifica pois posso sentir sua frustração ao ouvir de meus lábios meus fracassos. E quando a noite toma conta do céu, as estrelas testemunham minhas lágrimas solitárias banharem o solo.
O firmamento noturno, após testemunhar incontáveis lamentos lacrimejantes da minha parte, envia um sinal de alento e esperança para mim. Vejo uma estrela cadente riscar a noite e cair no ponto cardeal nordeste, em um ponto não muito distante do local onde depositei minhas lágrimas mais recentes. Fazendo uso de toda a minha velocidade, chego sem demora ao local do impacto, que reconheço como sendo parte de uma propriedade agrária. Vejo, sinceramente impressionado, a enorme cratera esférica criada pela queda do artefato celeste, mas meu espanto pela ocorrência incomum é convertido em grande preocupação quando percebo o corpo inerte de uma criança humana nas proximidades. Sem demora, venho em seu auxílio e inspeciono o seu estado de saúde suspirando aliviado que a delicada menininha de cabelos ruivos não estava ferida, apenas desfalecida momentaneamente. Com atenção completamente focada na criança, demoro a perceber a presença que um outro ser humano, que caminha com dificuldade em minha direção. Ao me virar, vejo que se trata de um homem adulto, com profundas queimaduras tanto no braço quanto na perna do lado esquerdo. Seus olhos se arregalam espantados e temerosos quando ele vê a menina em meus braços. Rapidamente, tranqüilizo o cidadão dizendo que a criança está apenas desmaiada e ofereço o benefício de meus poderes mágicos para curar suas graves feridas. A fim de vencer a sua grande desconfiança, desfraldo meus quatro pares de grandes asas emplumadas revelando a minha natureza celestial. Diante desta cena, a expressão facial do homem se transfigura e ele sorri para mim agradecido. A criança finalmente desperta de seu sono involuntário e pulando de meu braços, corre em direção ao homem aos gritos de “papai”, que retribui o gesto de carinho com um abraço doloroso devido aos ferimentos.
Uma vez que fui dotado de grandes poderes medicinais, restauro em poucos minutos a epiderme que fora destruída pelo intenso calor. Durante o processo de cura, ouço passos de mais uma pessoa se aproximar rapidamente. A menina, que estava abraçada ao pai, reconhece prontamente a mulher que chega ofegante até o local onde estamos. Puxando a ponta inferior de uma de minhas asas, ela diz em voz alta: “mamãe!”. Ao ver que a menina e o homem estão bem, a mulher, uma bela jovem de cabelos dourados, ajoelha-se diante de mim com os olhos marejados de lágrimas. Sua emoção é tamanha que ela mal consegue formular palavras de agradecimento. Como resposta, esboço um sorriso e ofereço auxílio para que ela se levante. Assim que ela se ergue, seu marido vem abraçá-la com extrema ternura e ao fim deste gesto de carinho, seus lábios e línguas entram em uma excitante comunhão.
Ao observar esta demonstração explícita de amor e de afeto, meus pensamentos retornam à minha missão sagrada e ao desejo de concluí-la prontamente para, quem sabe um dia, também ter o prazer tocar os lábios da minha amada. Uma vez que o beijo ardente do casal termina, dirijo-me ao homem e pergunto se, por um acaso, ele conhece o mortal que a minha amada tanto deseja encontrar. Quando termino de fazer a pergunta, o rosto do homem subitamente empalidece como se uma legião de horrendas aparições tivesse se materializado diante de seus olhos. E com a voz trêmula e hesitante, ele me faz uma chocante revelação:
- O homem que você procura sou eu.
Ao ouvir tais palavras, minhas pernas fraquejam e caio ajoelhado na relva, evitando a todo custo olhar para o mortal. Desnorteado, ouço sua voz reverberar em meus ouvidos enquanto imagens, em rápida alternância, da minha linda amada saudosa no alto da sua torre de mármore e do beijo que acabei de presenciar, obliteram minha visão. Todas as fibras do meu corpo se contraem fortemente quando minha mente clareia ao ponto de aceitar o fato de que estou diante do homem que roubou de mim o coração da minha amada e que este mesmo homem é o crápula desgraçado que a abandonou para viver um romance com uma reles meretriz mortal.
O homem se aproxima de mim com um patético semblante de preocupação e coloca a sua vil mão direita em meu ombro. O seu toque desperta, pela segunda e desgraçada vez, a ira contida em meu coração e espírito. A destruidora labareda da fúria clama pelo controle de meus poderosos músculos e em resposta ao seu pedido, enfraqueço voluntariamente as muralhas da minha força de vontade. A libertação da ira, me transforma em um sangrento arauto da chacina.
O humano, que ousou roubar de mim o coração da minha amada e teve a impiedade de destruí-lo, é o primeiro a perecer. Seu sangue imundo respinga sobre as faces eletrocutadas de sua esposa e de sua filha quando seu braço direito é aniquilado pelas minhas mãos nuas. Observo satisfeito, os olhos arregalados, que conjugam agonia e pânico. O desgraçado se rasteja como um verme miserável, enquanto tenta balbuciar, ao que parece, algum tipo de súplica. Mas é um grito pavoroso que é proferido no momento em que esmago as suas pernas. Com um maciço soco desferido no lado esquerdo do peito destroço as suas frágeis costelas, facilitando assim o trabalhos de meus dedos, que perfuram sua pele e músculos, extraindo do tórax seu sórdido coração. Mesmo fora do corpo, o músculo cardíaco ainda teima em pulsar odiosamente e seu som insidioso ressoa dolorosamente em meu crânio. Com todo o desprezo que a abjeta criatura que jaz aos meus pés merece, esmago o receptáculo orgânico de suas emoções.
O maldito está morto, porém minha ira incontida clama ansiosa por mais sangue. Alertado pelo som do pranto desesperado das duas mulheres humanas, minha atenção se volta para elas. Apesar de completamente transtornado, mantenho um mínimo de senso de misericórdia e a execução das duas é rápida e não muito indolor. Estraçalho a cabeça da criança entre as minhas mãos e com o auxílio de minha espada sagrada, rasgo o ventre da mulher com um só golpe. No meio da infinidade de vísceras sanguinolentas que cobrem o cadáver da jovem, vejo um pequenino feto.
Uma vez saciada, a besta furiosa finalmente se acalma e retorna aos recantos mais inóspitos de meu coração. Minhas asas, outrora alvas e resplandecentes, estão encharcadas de sangue fresco. Não sinto qualquer arrependimento, nem tristeza, mas sim uma alegria devastadora. Um sorriso forjado com a mais pura satisfação, surge em meu rosto, uma vez que aquele mortal insensível e ignorante jamais espezinhará novamente os sentimentos de minha amada. Outro motivo da minha felicidade é que o coração da minha amada poderia ser finalmente meu, já que não existe mais um rival para me desafiar e dessa forma nosso amor poderia ser consumado. Ávido em retornar à residência de minha idolatrada com as boas notícias e esperando tomá-la logo em meus braços, lanço meu corpo aos céus, mais rápido que uma flecha, em direção ao horizonte.
Ao romper a fronteira que separa os domínios terrestres dos reinos divinos, vislumbro o topo da imponente torre de mármore esverdeado, que é a morada da minha divindade amada. Meu coração se acelera na mesma proporção em que me aproximo do meu destino. Quando já estou sobrevoando os imensos e gloriosos jardins que circundam a torre, percebo que existe ao lado dela uma nova e pequena edificação. Sua aparência externa é exatamente idêntica a uma das inúmeras capelas existentes na terra em homenagem à minha adorada deusa. Ao me aproximar da construção, vejo a minha amada mãe, e futura amante, diante de uma grande porta dupla de madeira, que encontra-se aberta. Com um gesto delicado, ela me convida a entrar no templo e sem demora obedeço o seu chamado, atravessando os portões principais poucos segundos após a minha amada adentrar no edifício. E neste momento minha imaginação se eleva, acreditando que este é o local onde nossos lábios finalmente se encontrarão.
Meu breve sonho delirante se quebra, quando contemplo o interior da construção. Não consigo conceber em palavras a minha reação diante da dantesca paisagem artificial. O interior do templo é completamente oposto ao que o seu aspecto exterior pode sugerir. Chão, paredes, colunas, a cúpula que forma o teto. Tudo no interior do aposento único daquela capela é feito de ossos humanos. Incontáveis crânios, fêmures, tíbias, vértebras, alinhados e amalgamados são os tijolos que sustentam a construção. A excentricidade de tal obra só poderia ao Soberano da Morte, porém meu corpo estremece quando a minha amada, que encontra-se de costas para mim no centro do templo, fala docemente:
“Eu construí esta capela para você, filho meu. A partir deste momento e pelo resto daquilo que chamamos de eternidade, esta será a sua morada.”
Antes que eu pudesse assimilar completamente o teor de tais palavras, incontáveis correntes farpadas feitas de ferro enegrecido e enferrujado, surgem repentinamente das órbitas vazias dos crânios usados na construção do local. O abraço torturante de tais artefatos destroçam facilmente minhas asas e seus espinhos afiados enterram-se profundamente em minha carne. Quanto mais força empreendo para libertar-me, mais forte é a contração das correntes. Mesmo com os olhos semi-cerrados devido a dor, sou capaz de ver minha amada cerrar com delicadeza o punho esquerdo. Logo em seguida, as correntes me puxam com violência até um dos pilares da construção onde sou fortemente agrilhoado.
Completamente confuso e desesperado, grito para a minha amada:
- Porque castiga-me desta forma? O que fiz para merecer tamanho tormento? Eu a amo tanto! Amo-te mais do que a minha própria vida ou felicidade! Assassinei o mortal ignóbil que partiu seu coração. Vinguei a dor que você sentiu, para que pudesse voltar a sorrir! Então explique-me o porquê desta punição?
Um ínfimo, porém mortalmente silencioso momento separa o eco da minha última palavra do início da imperiosa fala da minha amada mãe. Sua voz não tem mais a doçura de antes, apenas uma inquietante amargura.
Filho meu ouça com atenção as minhas derradeiras palavras. Pecado incomparável é o teu, que ousou profanar o sentimento mais sagrado, que é o nós chamamos de amor. Arrependo-me profundamente de tê-lo concebido, pois seu espírito que deveria ser puro e neutro foi maculado pelos sentimentos que nutria pelo mortal que você assassinou friamente. Dessa forma, você nasceu, não divino, mas humano e imperfeito, carregando em seu tosco coração a causa de sua desgraça: a paixão desmedida, o desejo insuportável de me ter como sua companheira a qualquer custo. Desejo este que você chama erroneamente de amor.
O amor verdadeiro não é só vivenciar tranqüilidade e alegria, mas também é preocupação e sofrimento. Não é um querer egoísta e possessivo, mas sim abnegação e sacrifício. Porém é tarde demais para que você possa compreender toda a complexidade de tal sentimento.
Thanatos, o deus da morte, sussurrou em meus ouvidos o hediondo crime que você recentemente cometeu. Matou inocentes, chacinou meu amado. E antes que eu lhe diga a sua sentença por tal barbárie, quero que saiba que o homem que você matou impiedosamente, apesar de ter me abandonado, sempre estará em meu coração porque eu sempre o amarei. Se eu soubesse que ele tinha encontrado uma outra mulher e estivesse feliz ao seu lado, meu coração também se encheria de felicidade. E por maior que você a mágoa que pudesse sentir por ele não ter me avisado sobre sua decisão, eu o perdoaria. Entretanto, devido ao seu sentimento corrompido, eu, meu amado, sua esposa e sua filha, fomos privados deste sentimento de felicidade, uma vez que nos reinos de Thanatos, não existem sentimentos.
Em decorrência de seu pecado e de seus crimes, você será condenado a permanecer neste cárcere, cujo nome é Capela dos Ossos, por toda a eternidade. No momento em que os portões desta capela forem lacrados, você será banido para um lugar esquecido dos domínios terrestres. Que este exílio eterno seja capaz de expiar os seus crimes, purificar seu espírito e extirpar a sua mácula.
Adeus filho meu.
Ao fim destas palavras, a minha amada mãe se vira para mim e vejo pela primeira e única vez em minha existência sua face em total plenitude. Porém o único traço facial que é gravado em meu cérebro é o seu olhar carregado com uma tristeza imensurável. E de seus olhos de esmeralda, caem lágrimas feitas da mais pura luz.
Fecho os olhos e começo a chorar. Ambos permanecem fechados até o momento em que ouço os portões do templo se fecharem com um ruído trovejante. Quando reúno coragem suficiente para abrir os olhos, vejo que estou imerso em trevas frias e silenciosas. E continuo a chorar até a minha última lágrima tocar o chão da Capela dos Ossos.