COLAPSO – parte IV

Novembro 23, 2008 at 8:20 pm (Fragmentos Coletivos)

- Algo de muito errado está acontecendo – disse Coldheart ao ver os campos congelados do Reino de Tristefim iluminados pelo sol. – O crepúsculo eterno que protegia estas terras foi desfeito.

Preocupado, ele desceu as escadas até chegar ao seu quarto. A frieza abandonou seu rosto quando viu várias pilhas de papel branco. Os contos recém terminados foram todos apagados.

- Não pode ser! O que aconteceu com os meus textos? Sequer me lembro do assunto de cada um deles. Será que é algum efeito colateral pelo fato ter escrito uma comédia? – perguntava Coldheart a si mesmo enquanto olhava para uma folha de papel. – Bem que me avisaram para  ter cuidado ao escrever textos cômicos previsíveis demais.

O guerreiro do coração de gelo tentou escrever um novo conto mas desistiu após amassar centenas de páginas rasuradas no espaço de poucas horas. E chorou ao perceber que não conseguia mais escrever. Levantou-se e olhou novamente para a paisagem. O sol já tinha derretido a maior parte do gelo. As flores começavam a nascer e animais fofinhos surgiam do nada. Sem o crepúsculo eterno criado por Coldheart, Tristefim logo seria um lugar colorido e alegre. Uma verdadeira tragédia.

A fim de evitar um possível final feliz, Coldheart decidiu viajar até o centro de Contonópolis que, ao contrário de Tristefim, estava coberto por uma densa escuridão. Asas surgiram nas costas de sua armadura de couro de dragão e após um vôo célere, Coldheart avistou uma estranha fumaça vermelha. Quando desceu, viu o corpo inerte de Lola, a feiticeira elfa. Percebendo que o sono dela era profundo, decidiu levá-la para um lugar seguro.

- Que criatura vil faria algo assim? – sussurrou Coldheart enquanto alçava vôo. – Sem a Lola terei que arcar sozinho com os prêmios do concurso de contos! Alguém pagará muito caro por isso e espero que não seja eu.

Imerso em pensamentos capitalistas, o guerreiro de coração de gelo sobrevoou Contonópolis e avistou Anarco-caos que estava em apuros. Coldheart se aproximou da massa escura que aprisionava o duende e tirou seu amigo de lá, levando-o para um dos poucos pedaços de terra firme que sobraram. Neste momento, Ermel, o rei-sapo, faz uma entrada triunfal saindo de dentro de uma moita e assustando a todos, exceto Lola que continuava dormindo.

Refeitos do susto, os amigos conversaram sobre os recentes acontecimentos e até tentaram começar um conto coletivo. Após várias tentativas fracassadas, a agonia era visível no rosto de Coldheart.

- Vou enlouquecer se não escrever um conto com, pelo menos, 7 advérbios e 13 adjetivos por frase! – desesperou-se o guerreiro do coração de gelo. – E o pior é que nem sabemos quem é o responsável por isso.

A feiticeira Lola, ainda inconsciente, levantou o braço mostrando uma plaquinha de papelão. Em um lado estava escrito “Emil” e no outro “Não me acordar até a parte 10″. Diante destas informações, Coldheart pensou por alguns momentos e decidiu procurar pelo seu amigo Emil , protetor dos orcs e demais povos marginalizados na maioria dos contos. Uma vez que ninguém sabia o endereço de Emil, Anarco-caos sugeriu que Coldheart procurasse o Seu_Madruga, o crítico vorpal de Contonópolis.

O guerreiro do coração de gelo gostou da idéia e voou célere em direção a uma pequena vila mexicana. Ao chegar lá viu novamente uma fumaça vermelha em frente à porta do número 72. Do meio dela, apareceu Emil tossindo e exibindo uma vistosa pose de vilão. Ele apontou para Coldheart em sinal de desafio.

- Estava esperando por você, guerreiro da espada de lâmina congelante. Eu li os acontecimentos recém-narrados e vi que escreveu “célere” mais duas vezes -  falou Emil enquanto riscava, a lápis, dois pauzinhos em um pedaço de papel.

- “Desculpe-me pela demora. Trouxe para você a misericórdia da morte” – bradou o guerreiro, sacando sua espada de gelo, Calafrio do Vento Cortante.

- Você está sem imaginação mesmo, Coldheart! Copiar um trecho do seu conto “A Tempestade dos Exilados” é o cúmulo da decadência! – Emil sorriu aguardando o ataque do adversário.

O arauto da escuridão aparou facilmente o golpe de Coldheart e a lâmina da Calafrio do Vento Cortante quebrou-se com o impacto. O contra-ataque de Emil foi um conto-ataque de temática adulta, criado com o método de escrita best-seller, um dos poderes concedidos pela escuridão. Diante da poderosa ofensiva, Coldheart teve seu coração arrancado.

- Tolo! Por acaso se esqueceu que em Contonópolis se duela com contos? Deveria acompanhar mais o “Penas & Espadas”! -  dvertiu Emil. – Levarei seu coração congelado comigo. Preciso dele para algo importante.

Emil saiu de cena em grande estilo, deixando um rastro de fumaça vermelha e ecos de uma risada diabólica. Já  Coldheart,  mesmo com um rombo enorme no peito, bateu três vezes na porta da casa 72 antes de desmaiar.

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