ERA UMA VEZ, UM GRUPO DE TRÊS AVENTUREIROS…

Novembro 23, 2008 at 8:12 pm (Contos Inacabados)

Parte I – Caminhando pela Floresta de Genérica

- Não posso crer que eu, o príncipe Perfectus Falkenstein IV, amante da interpretação pura e com uma história superdetalhada em três volumes de 700 páginas cada, estou estragando as minhas vestes caríssimas nesta floresta imunda. E o pior, na companhia de um Advogado de Regras e de um Apelão Overpower! – reclamava em alto e bom o som o jovem nobre do reino de Falkenstein, que era dotado de beleza, carisma e imponência de um verdadeiro monarca.

- Mas que droga! Quer parar de reclamar! Se você valesse pelo menos 1 XP, já estaria morto a essa hora. – rosnava Crash Slashack, o lobisomem guerreiro, psicótico e colecionador de itens mágicos, enquanto arrumava sua metralhadora-fetiche giratória ponto 30 que tinha um elemental do fogo aprisionado.

À frente do grupo, e alheio à discussão, estava o pequenino mago lich-devorador-de-regras Handbook Regulatio. Apesar de ser o guia o grupo, seus olhos estavam sempre afixados em um grande tomo de conhecimento chamado O Grande Livro da Floresta de Genérica, edição 7.2. Após incontáveis horas de caminhada, Crash já estava à beira do frenesi.

- Assim não dá! Quando vai aparecer um encontro aleatório nesta droga de floresta? – gritou o lobisomem, ávido por precisos pontos de experiência.

- Acalme-se Crash – falou Handbook. – Segundo a página 798 da 14ª edição revisada do Grande Livro da Floresta de Genérica, não há encontros aleatórios nesta parte da mata. Além do mais, devemos poupar forças para lutar contra o poderoso dragão Caótico-Mal que seqüestrou a princesa Princesinha, filha do rei Reizinho de Genérica.

- Não tem problema, cara. Eu regenero. – responde o lobisomem, mostrando orgulhoso sua camiseta regata de algodão +30 da regeneração instantânea.

- Eu sei que você regenera, massa abjeta de músculos, pêlos e itens mágicos. Porém, nós não! E você ainda fez o favor de esquartejar o nosso curandeiro. – disse Perfectus com amargura.

- Ah! Foi mal aí, galera! Foi um ato reflexo. Quando ele foi tocar no meu ferimento pensei que ele ia me imobilizar para depois atacar com uma daquelas magias necromânticas bizarras, como aquela tal toque retal. Sou muito novo pra fazer exame de próstata. – justificou-se Crash.

- Certamente estava sofrendo de algum transtorno mental quando aceitei participar de tal empreitada. – falou Perfectus suspirando desolado enquanto olha para o céu.

- Na verdade, meu amigo, você era um dos pouquíssimos sobreviventes do massacre promovido pelo Crash na taverna. E não se esqueça que a gente não tinha opção. Era aceitar a história do Mestre ou não jogar hoje. – explicou Handbook.

- Eu sei, mas o velhinho na Taverna que convoca os personagens para salvar a princesa das garras do dragão maligno é clichê demais… – suspirou novamente Perfectus.

O lich se apressou em cobrir a boca do nobre do reino de Falkenstein e olhou assustado para o céu azul.

- Não reclama em voz alta que o Mestre pode ouvir. Você sabe que ele é muito sensível a críticas e … – a voz do lich-devorador-de-regras é suprimida pelo estrondo de um trovão.

O céu repentinamente ficou cinzento e tempestuoso. Uma voz imponente que parecia vir do céu esbravejava com os aventureiros:

- Eu ouvi isso! Vamos parar com essa enrolação e prosseguir com a aventura, antes que eu coloque o Tarrasque para brincar com vocês!

Após o incentivo providencial do Mestre, o intrépido grupo prosseguiu sem mais reclamações em sua jornada pela Floresta de Genérica.

Parte II – O Pedágio

Os três companheiros, após horas de caminhada, chegaram até a margem de um rio que possuía uma forte correnteza. Felizmente existia uma ponte de madeira, mas infelizmente a passagem estava bloqueada por um cancela. Ao lado dela uma cabine rústica ostentava uma placa com os dizeres: “Pedágio”. Perfectus aproximou-se da cabine e ouviu um ronco pesado. Sem usar muita força bateu na porta a fim de acordar o funcionário.

- Com licença, senhor. Em primeiro lugar, bom dia. Haveria a possibilidade do senhor nos conceder gratuitamente a passagem por esta ponte? – perguntou polidamente o príncipe de Falkenstein enquanto Handbook tentava segurar Crash que queria destruir logo a cancela.

A porta da cabine se abriu e um imenso e feio troll saiu de lá. A criatura, que segurava uma imensa clava, bocejava enquanto arrumava seu uniforme e crachá.

- Ô playboyzinho! Tu não leu a praca, não? Pra passar pela cancela tem qui pagar o pedágio, cumpadi! Cinqüenta peças de ouro por cabeça. E facilita o troco, mané ! – dizia o troll enquanto tirava meleca do nariz.

Perfectus ficou um tanto contrariado com rudeza do monstro e profundamente enojado com o mau-hálito dele, precisando fazer um teste fazer um teste de Vigor com dificuldade 6 para não vomitar. Dois sucessos em 3d10 foram suficientes para espantar a náusea.

Enquanto isso, o lobisomem olhava o monstro de cima a baixo atentamente com uma expressão enigmática do rosto. E depois de 1d4+2 minutos comentou com seus amigos:

- Pessoal! Nós estamos diante de um troll funcionário do pedágio! Vocês sabem o que isso significa?

- Significa que podemos conversar com ele a fim de negociarmos um desconto na tarifa? -disse Perfectus, já refeito do enjôo.

- Significa que ele é um troll verde-limão da margem do rio que possui 69 pontos de vida, + 15 de armadura natural, tem um bônus de +14 em ataques com a clava. Sua aversão a caloteiros que tentam passar pela ponte sem pagar impõe uma penalidade de -10 em testes de diplomacia. – falou Handbook, enquanto lia um imenso livro intitulado 3º Compendio de Criaturas Mágicas da Margem do Rio. Edição 3.87 revisada e ampliada.

Errado! – gritou Crash enquanto corria em direção ao troll segurando seu machado extra-grande +5 flamejante afiado assassino destroçador e vorpal. – Significa XP!!!

- Droga! – resmungou o troll em sua ação livre antes do rolamento da iniciativa. – Devia ter escutado a minha mãe e estudado ao invés de ficar assistindo televisão.

A sorte sorriu para o funcionário do pedágio e ele conseguiu a vantagem de agir primeiro. Temendo a arma vorpal do lobisomem, bebeu uma poção de crescimento sabor laranja. Em menos de um segundo ele cresceu até chegar a impressionante altura de 9 metros.

- Quero ver cortar minha cabeça agora, lobinho! – zombou o monstro mostrando a língua.

Crash não se intimidou com o tamanho do oponente e golpeou, com toda a força concedida pelos seus Suspensórios da Força do Gigante do Pé de Feijão, o troll na altura de seu tornozelo. O rolamento do ataque não poderia ser mais perfeito: 20!20!20! Um acerto crítico, decisivo e incontestável! Instantaneamente, a cabeça do monstro cai diante do lobisomem, que corre sem demora para vasculhar o cadáver em busca de dinheiro e itens.

- Como é que ele conseguiu cortar a cabeça do troll golpeando o tornozelo dele? – perguntou um incrédulo Perfectus.

- A regra é clara! Não importa o lugar. Se for crítico e a criatura não for imune à decapitação, vorpalizou! – respondeu Handbook mostrando ao nobre a página 369 do Manual de Regras Avançadas para Armas Vorpais.

- Mas isso não tem lógica! – retrucou Perfectus, que estava indignado.

- Bem… eu também não vejo lógica em um lobisomem armado até os dentes obcecado por combos, itens mágicos e pontos de experiência. – disse Handbook.

- É verdade… – suspirou Perfectus.

E assim os nossos heróis atravessaram a ponte e seguiram em direção ao covil do maligno dragão vermelho Caótico-Mal.

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