A MOEDA DE 10 CRUZADOS

Novembro 23, 2008 at 8:14 pm (Contos Inacabados)

A sonolência intensa que sinto neste momento obriga-me a traçar palavras feias e imperfeitas. Apenas a força de vontade que me resta mantém a minha mente e meu espírito ainda despertos. Entretanto  nem mesmo a mais férrea determinação é capaz de postergar por tempo indeterminado a sedução ímpia de Morfeu. As pálpebras que antes eram de carne agora tem a densidade do chumbo. A letargia afeta tanto minha coordenação motora  quanto a minha percepção sensorial. A longa e penosa privação temporária de descanso  fraturou minha mente de tal forma que um som de origem puramente ilusória, mas assustadoramente real, forma-se no interior de meu canal auditivo. Uma melodia lenta, familiar e sedutora que, da mesma forma que o canto da sereia, tenta domar a minha resistência e me levar para o reino dos sonhos.

Lágrimas amedrontadas caem pesadas sobre o papel onde redijo este relato. Não quero dormir porque tenho medo do que irei encontrar em meu sonho. Cultivo o imenso pavor de nunca mais acordar. Não posso culpar o leitor destas palavras por julgar-me um alucinado que carece de tratamento psiquiátrico. Talvez tal este julgamento acerca de meu estado psíquico seja correto e eu gostaria que fosse, porém existem fatos que considero irrefutáveis e que fornecem a credibilidade necessária para que meu temor seja justificado.

Antes que eu seja finalmente vencido pelo sono inclemente, preciso deixar registrado a origem do meu medo de dormir. Caso jamais retorne da minha próxima jornada aos reinos oníricos, espero que estas palavras sirvam de alerta aos incautos e evitar que eles tenham a mesma triste sina que a minha. Na pior das hipóteses espero que a minha história pelo menos sirva como entretenimento.

A minha tragédia começou a quarenta e cinco dias atrás em um agradável e insuspeito fim de tarde. Como fazia todos os dias após o término da jornada de trabalho, contemplei o crepúsculo vespertino emoldurado pela paisagem urbana do centro da cidade. Enquanto o Sol morria tímido atrás de um horizonte vertical de vidro e concreto, pessoas anônimas de feições indiferentes passam apressadas por mim e a sinfonia caótica de motores e buzinas distrai a minha mente das amargas agruras da minha existência.

No momento em que a cúpula celeste adquiriu finalmente a coloração característica da noite prossegui com meus ritos diários habituais. Caminhei sem pressa em direção ao ponto final do ônibus. Como sempre fazia, parei no meio do caminho para comprar um jornal, a fim de suportar a longa fila de embarque que me aguardava no ponto final e também a tediosa e engarrafada viagem de volta para casa. Mediante um gesto desastrado da minha parte no momento em que recebi o troco do jornaleiro, deixei cair algumas moedas no chão de pedras portuguesas. Ainda levemente constrangido pela situação, agachei-me para reaver o dinheiro perdido e fui surpreendido ao ver ao lado da minha moeda de cinqüenta centavos, uma outra moeda. Meu espanto foi intensificado após executar rápida análise visual no pedaço de metal: era uma moeda de dez Cruzados datada do ano de 1987. Certamente não era uma moeda rara o suficiente para que valesse alguma coisa para um colecionador, mas sem dúvida alguma era incomum encontrar uma moeda dessas nos dias de hoje.

Esbocei um leve sorriso enquanto colocava a moeda no bolso pensando que essa ocorrência incomum pudesse ser o indício de uma sorte vindoura. Continuei meu caminho em direção ao ponto de ônibus atravessando faixas de pedestres, passando por entre carros lentos e motos apressadas, desviando o olhar por momentos ínfimos para observar a infinidade de produtos, a maioria claramente falsificada, oferecidas pelos vendedores ambulantes.

Em dado momento, já próximo de meu destino, tive a inquietação de estar sendo observado e em um ato reflexo levei a mão até o bolso onde estava guardada a minha carteira ao mesmo tempo que perscrutei ao meu redor à procura de um indivíduo aparentemente desejoso em furtar minhas escassas economias.  Para meu alívio não encontrei nenhum assaltante em potencial, mas tive a certeza de reconhecer um semblante vagamente familiar do outro lado da rua. Quando afixei o olhar para que pudesse identificar a pessoa percebi que ela havia desaparecido. Tal fato deixou-me bastante intrigado, pois apesar da familiaridade que senti, não consegui apreender em minha mente nenhum traço facial da pessoa que me observava.

Ao chegar, finalmente, no ponto de ônibus enfrentei a tradicional fila formada, em sua maioria, por trabalhadores exauridos após árduas jornadas de trabalho. Enquanto esperava pacientemente pela chegada de um ônibus onde pudesse viajar sentado comecei a ler o jornal que comprei. Logo na primeira página, uma manchete em letras garrafais despertou a minha atenção: “Crueldade sem limites”. Embaixo do título impactante estavam grafadas as seguintes palavras: “Polícia encontrou o corpo mutilado de um menino em seu próprio quarto. O estado do cadáver chocou até mesmo os policiais.” Levemente incomodado, mas bastante interessado pelas poucas palavras presentes na capa do jornal, dirigi-me veloz à página quatorze, que descrevia com minúcia os detalhes pertinentes sobre o sórdido homicídio.

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