O HORROR DA VIDA E DA MORTE
Escrito por Daniel Cardoso Portela Câmara.
Os raios da lua jorram do céu, atravessando galhos de arvores com folhas de prata. Um mar de nuvens corre soltas pelo céu, sendo empurradas incansavelmente por uma ventania eterna. Eu caminho por entre essas belas árvores, mas ao invés de me sentir bem andando pelas minhas terras, me sinto louco, tomado por um sentimento de destruição terrível. Cambaleando e tropeçando a cada passo, eu deixo um rastro de sangue e arrependimento por onde eu passo. Os pássaros da noite não mais cantam! Não sinto nenhum inseto voando perto de mim, e fui privado da beleza de poder acariciar os animais dessa linda floresta. Por onde quer que eu ande, encontro apenas morte, dor e sofrimento. As árvores do meu reino já foram fortes e imponentes como montanhas, mas agora, seus troncos estão retorcidos, seus galhos dobrados tentam desesperadamente agarrar algo fora de seu alcance. As folhas delas caíram há muito tempo, e agora são um tapete de beleza e morte nessa floresta desgraçada. A cada tombo, meu rosto desaba em lágrimas, não sei mais o que é realidade e o que é loucura. Procuro desesperadamente a morte, mas seus braços negros se afastam de mim a cada pensamento de suicídio que tenho.
Amaldiçoado com uma existência sem objetivo, eu sinto dores incríveis ao menor movimento que faço. Mas, ao invés de repousar e esperar que as trevas me abracem, eu ando atrás do que trouxe o inferno a um reino de beleza. Meus olhos vermelhos pulsam de dor a cada momento, eu perdi a capacidade de dormir. Toda a vez que meus olhos se fecham, vejo coisas horríveis, vejo morte e pânico dançando obscenamente sobre milhares de corpos ainda quentes, os corpos de meus irmãos e irmãs! Por mais que eu sinta dor e caia no chão, eu não pisco, quero que esses demônios saiam de minha mente. Em uma busca desenfreada pela morte, sou contemplado com seus irmãos: a decadência e a doença. Dos restos de uma mente que um dia já foi feliz, lembro-me apenas de poucas coisas. Eu, eu já fui um elfo. Meu reino, abençoado pelos deuses, era o símbolo de beleza e graça de todo o mundo. Há eras longínquas, diziam meus pais, meteoros desceram do céu, e abençoaram nossa floresta com sua essência. Cobriram nosso lar com sua cor prateada, transformaram as árvores em imagens belas de tesouros de prata. E onde os meteoros repousam, magníficos lagos espelhados refletem a luz das estrelas, são espelhos para os próprios deuses. Tamanha era a beleza do nosso reino, que apenas nós, elfos, podíamos enxergá-lo. A magia e beleza do lugar era tanta, que criaturas mágicas começaram a nascer e viver no reino. Fadas, sprites, pixies, criaturas que são uma junção de magia e natureza, todas elas viviam conosco, como uma grande família.
Deve ser da própria natureza daqueles que vivem, e tal presente foi cobiçado por cada fibra de todos os elfos. Famílias se separaram, filhos mataram seus pais, irmãos tomaram irmãs como esposas. Desgraça caiu sobre todos nós, que nos considerávamos uma raça abençoada. Um milênio inteiro passou antes que baníssemos definitivamente os elfos tocados pelo mal. Sua mente absorveu tantas coisas ruins, que sua pele perdeu a cor, tornaram-se brancos e pálidos como os mortos, e seus cabelos adquiriram a cor da prata celestial que tanto almejavam. Seus olhos vermelhos exprimiam tanta fúria e tristeza, que não era possível encará-los de frente. Suas artes foram deturpadas, perderam sua língua para falar em grunhidos e palavras horríveis, e começaram a se alimentar da nossa carne. Nós, sentados em tronos de autoconfiança e luxuria, organizávamos expedições para as profundezas onde esses malditos se escondiam. Nunca uma raça odiou tanto outra. Os deuses choraram por dias a fio, suas lágrimas desciam do céu castigando cada ser vivo do mundo. Quando a última guerra chegou ao seu fim, achávamos que tudo finalmente tinha acabado. Nós nos infiltramos nas cavernas negras e malditas deles, matamos todas as suas crianças e mulheres. No palácio onde seu rei governava em meio à sujeira e decadência, fizemos uma festa de sangue, decapitamos todos e queimamos suas carcaças. Estávamos tão sujos, que até nossas almas fediam. Aquela era uma sujeira que nem mil anos de redenção e perdão poderiam apagar. Estávamos tão felizes com nosso genocídio, que acabamos, sem perceber, vendendo nossa alma para o mal. Os deuses viraram seus rostos, nos privaram de sua benção e luz.
Parados lá, nós éramos por volta de mil guerreiros magos. Caminhávamos para as profundezas do mundo, e à medida que isso acontecia, nossas almas ficavam cada vez mais distante da luz bela da pureza e a escuridão nos abraçava. Pouco a pouco, nos mesclávamos ao tecido do mal. A escuridão que antes nos assustava e nos deixava aflitos, agora era nossa companheira. Perdemos o medo de andar em um local tão corrupto, e nossa mente só criava imagens de felicidade em meio aos corpos pútridos. Em suas cavernas, acabamos com suas vidas malditas. Uma turba enfurecida de loucos, almejávamos cada vez mais sangue. No fim de alguns anos, extinguimos completamente toda uma cultura. Uma raça de seres vivos, que, por mais que fossem corruptos e malignos, eram a nossa criação. Confinados como ratos e insetos, todos foram queimados. Pensando nisso, talvez nós não fossemos tão diferentes uns dos outros e pelo menos, eles demonstravam sua maldade. Quando finalmente saímos daquelas tocas imundas e respirávamos o ar puro, sentíamos que fomos tocados por algo desconhecido. Aquele mundo de lá de fora não era mais o mesmo, estávamos tão acostumados com as trevas, que a luz nos machucava. Sem que nos deixássemos abater, voltamos para nossas casas, em busca de nossa família que há muito abandonamos. Nossos passos não eram recepcionados pelas criaturas da floresta, que fugiam de nós como se fugissem de seus predadores. Nossos passos eram incertos, não sabíamos se deveríamos voltar, e mal sabíamos se havíamos ganhado a batalha. Éramos vencedores ou perdedores?
Foi então, que chegamos à nossa capital. Ela era bela, suas construções eram tão altas quanto as copas das árvores, tão belas quanto um dia de primavera, e tão calorosas como o carinho de nossas famílias. Suas paredes eram brancas como mármore puro, e as fontes magníficas transbordavam com uma água cristalina e pura. Flores cresciam em nossa cidade em todas as épocas do ano. Animais caminhavam juntos conosco, chegamos a tal ponto, que nos tornamos um só com a natureza. A primeira sensação que tivemos ao avistar a cidade foi de choque. Tudo aquilo pelo qual nós lutamos com afinco e ódio, havia caído. O fogo era uma força caótica que lambia e destruía tudo. Milhares de pessoas, mortas, jaziam espalhadas por todo o local. No meio de toda aquela destruição, nossos inimigos dançavam banhados de sangue, se deliciando com a carne sagrada de nossos semelhantes. Eles erguiam os corpos no ar, bebiam sangue das fontes agora impuras, faziam obscenidades com os corpos, imaculando nossos semelhantes, nossas famílias. Nenhuma palavra foi proferida. Ver aquilo acabou com todo o resto de pureza de nossas almas, tínhamos um sentimento tão ruim dentro de nós, que quando percebemos, estávamos todos correndo em direção aos nossos inimigos, urrando coisas indizíveis e chorando lagrimas de sangue. Uma batalha horrível aconteceu.
Eu matava meus inimigos, e cada corpo que tombava refrescava minha alma. Das raízes de sangue que lavavam o chão, apenas cresceriam ódio e fúria. Os arqueiros disparavam flechas, que plantadas dentro dos corações negros de nossos inimigos, floresciam em palavras e sentimentos de corrupção. Eu já havia descido tão profundamente no abismo negro de minha alma, que não apenas me contentava em esfaquear e esquartejar meus inimigos, eu também estrangulava e arrancava pedaços seus com mordidas. Estávamos batalhando de igual para igual, bestas sujas contra bestas sujas. Em tal ponto da batalha, minha espada, uma vez linda e celestial, estava lascada com tanta raiva. Ela atravessava carne e ossos apenas para se chocar contra rochas no chão. Foi então, que quando vi, eu não tinha mais inimigos ao meu redor. Deturpei tanto os corpos de meus inimigos, que os remanescente fugiam de mim para lutar contra meus irmãos. Eu fiquei parado, observando o que eu havia feito. Eu ingeri o suco da decadência e autodestruição. Tinha em minhas entranhas, carne de seres pensantes, que como eu, já foram um dia elfos. Meu sangue estava misturado ao sangue de outros, e eu caí no chão, desesperado e corrompido. Um vento frio soprava do sul, um vento que tocava meus ossos e espírito.
E quando minhas lagrimas secaram, eu vi algo aterrorizante. Eu vi, saindo do meio dos corpos amontoados, uma figura encapuzada e esquelética, envolta por um manto pesado e sujo de sangue e vísceras. Aquilo não era dali, e apenas eu a observei. A batalha continuava enquanto a figura caminhava tranqüilamente por ali. Andava naturalmente, como se aquilo fosse normal. Seus passos eram leves e graciosos, e os movimentos que fazia com seu corpo me hipnotizavam. Por baixo do manto eu podia avistar um belo corpo feminino tão belo quanto perturbador. Sua pele se puxava sobre os ossos e sua pele era pálida e mórbida. Apesar de estar extasiado com aquela visão, eu fiquei perturbado pelo fato de seu capuz não mostrar seu rosto. Observando bem, não era um capuz, mas um saco negro amarrado com cordas! Filetes de sangue desciam de sua cabeça, e eu logo imaginei que era alguma sobrevivente. Levantei-me em meio a minha própria sujeira enquanto saquei uma adaga. Comecei a correr em direção a ela, mas cada passo me deixava cansado, e de alguma forma, ela parecia cada vez mais distante. Tinha a impressão de não estar conseguindo me mover, até que ela gentilmente levou suas mãos graciosas até as amarras em seu pescoço. Começou a tirá-las, com tanta leveza, que eu senti meu corpo sendo tomado por torpor. Fiquei parado ali por vários minutos admirando uma beleza perturbadora. Enfeitiçado por uma visão que eu nem sequer acreditava, ela havia finalmente tirado as cordas de seu pescoço. O saco negro estava empapado em sangue, e quando as amarras caíram, seu belo corpo esquelético ficou manchado de vermelho vivo. Quando finalmente seria agraciado com a visão de beleza perfeita, uma dor aguda e profunda atravessou meu peito, eu berrei e caí tonto, apenas para olhar uma flecha negra e infecta que havia atravessado minhas costelas. Sem forças para me sustentar, tombei achando que nunca mais levantaria. Meu executor estava a poucos passos de mim, e se aproveitou de minha distração. Quem sabe naquela hora, eu poderia pagar pelos meus pecados. . .
Quando abri meus olhos, sentia um cheiro tão horrível, que chorei de desespero. Meu corpo estava doendo muito, minha cabeça parecia ter um cavalo selvagem correndo e pisando furiosamente em seu interior. Eu me coloquei sentado, com um esforço inimaginável. Meu ferimento estava negro, cheirava muito mal. Estava muito preocupado com aquilo, mas meus pensamentos foram interrompidos pela paz e silêncio. Estava eu morto, ou apenas na beira da minha vida? Fiquei de pé, apoiando-me em minha espada. Quando olhei à minha volta, tudo aquilo que havia restado de bom em mim foi estilhaçado. Minha sanidade foi extirpada de minha mente, minha alma arrancada por mãos negras. Eu estava no meio de um mar de cadáveres, tantos cadáveres que eles se estendiam até onde minha vista alcançava. Um mar de sangue seco causava um contraste horrível com o branco de minha cidade e o prata das árvores. Eu estava aturdido, meus piores sonhos se transformaram em realidade. Os corpos, de alguma maneira, estavam retorcidos, com os braços protegendo seus olhos, como se não quisessem ver seu fim. Tantos os meus irmãos quanto os elfos das profundezas, todos eles encontraram uma morte horrível, como se tivessem contemplado a própria morte. . . a. . . própria morte!
Eu tentei gritar, mas minha boca estava seca e podre. Meus lábios rachados e minha língua com gosto de morte. Lágrimas não corriam de meus olhos, eu não conseguia nem mesmo fechar minhas mãos com força. Era tanto horror, que meus olhos para sempre ficariam esbugalhados, olhando para coisas que pessoas normais não conseguem ver. Eu caí de joelhos mais uma vez, esfreguei meus olhos, mas quando o fiz, desejei nunca mais isso. O negro de minha alma fora preenchido com visões de horror e morte. Vejo o campo de batalha onde eu estava antes de cair ser varrido por um vento negro. As faces que eles fizeram, as posições em que eles se encontravam ao se debater de horror. . . tudo aquilo, o horror de milhares de vidas que foram tiradas inutilmente durante um milênio de guerra, era o que eles viram. Não conseguiram suportar tal fardo, e morreram se contorcendo até que suas espinhas quebraram e não mais pudessem respirar. De alguma maneira eu fui privado dessa horrível morte, mas por que? Eu queria morrer com meus irmãos, para pagarmos por tudo o que fizemos! Tanta dor, tanto desespero que eu carrego, que mal tenho coragem de me matar. Não quero ter um destino de covarde, e decidi seguir aquela figura. Encontrei facilmente seus rastros, por onde ela passava, as coisas morriam. O ar ficava pesado e viciado, a terra ficava negra e as arvores morriam. Um tapete de prata me guiava até ela. Durante semanas eu tropecei em direção ao seu encontro, e cada vez que meus olhos se fechavam de dor, mais uma vez as visões horríveis vinham à minha mente. Com o tempo, eu pude vê-la ao longe em meus sonhos de insanidade. Ela andava graciosamente como o vento. Sua bela voz me dizia algo que me fazia acordar vomitando. Por mais que eu quisesse e lutasse para ficar acordado, cada vez que eu piscava, não sabia se estava sonhando ou se estava acordado. Eu mal sabia se estava vivo ou morto. Carrego comigo apenas a flecha em meu peito e a lâmina negra de minha espada. Espero que quando encontrá-la tenha forças para matá-la, para que possa finalmente parar de ter essas visões e estar livre de sua maldita voz. Que os deuses mais uma vez me iluminem.
“Eu poderia levá-lo aos meus aposentos e arrancar uma por uma suas unhas e queimar sua pele. Poderia estuprá-lo até que perdesse toda a sua esperança, e fazê-lo vomitar suas entranhas. Mas, preferiria lhe alimentar com fetos de crianças que nunca nascerão e fazê-lo me ver sorrir. A dor física não mais me interessa, meu desejo é a perdição espiritual. Junte-se a mim, veja um mundo deitar-se quando a luz do dia finalmente chegar ao fim. Observe o mal à luz da lua, e contemple as criaturas da noite. Eu sou a Morte. Quem é você, mortal?”