OS ÚLTIMOS DIAS
Escrito por Emil Lima.
Se existe alguma civilização nessa parte do mundo, isso se deve ao nosso povo. Afinal, quem mais teria força suficiente para construir e manter um império na borda do mundo? Aqui, do lugar mais alto construído, meus olhos quase tocam o Abismo. Eu não posso ver, mas sei que depois da selva densa que nos resguarda há o deserto. O deserto é lar dos gnolls. Meu pai sempre dizia que quando descobrissem uma utilidade para os cara-de-hiena, o povo orc iria para o deserto escraviza-los a todos. Eu nunca vi necessidade disso. O frágil equilíbrio é o que dá o charme da Terra das Feras Selvagens. Não há outro lugar em que goblins, humanos, orcs, kobolds e gnolls vivam em relativa paz. Os gnolls vivem no deserto, que é o melhor lugar para um gnoll viver. Os kobolds vivem em suas tribos nas clareiras da grande selva. Não há melhor lugar para um kobold viver. Os poucos humanos que vivem por aqui são diferentes dos humanos do resto do mundo. Dizem que os humanos de Humanitatis chamam os humanos daqui de bárbaros. Mas os humanos daqui vivem do que caçam e pescam, e não aprenderam a gastar seu tempo com besteiras criadas por elfos e anões. Se os humanos tivessem a metade da inteligência que pensam que tem, viriam todos viver por aqui. Os goblins já tiveram um reinozinho, mas agora vivem sob a nossa proteção, junto conosco e trabalhando para nós. Alguns ainda não perceberam, mas não existe lugar melhor para um goblin viver. E é claro, nós, os orcs, que vivemos na esplendorosa cidade-fortaleza inexpugnável, cemitério de dragões e mãe gentil.
Meus olhos contemplam a beleza verde que circunda a grande pedra cinzenta. Um pequeno lamento percorre minha alma de orc jovem e duro. Sou amigo do melhor dos orcs: o garoto tem a coragem de cem homens, e, como todo bom orc, ferro no sangue e pedra nos ossos. Falta-lhe apenas a visão. Nasceu cego. Não pode contemplar a beleza do nosso lar, como agora eu faço. Sua visão jamais procurará a divisão entre a selva e os pântanos. Não olhará na direção do deserto. Mas também não tentará imaginar o local que jaz depois do mundo normal e antes do grande abismo. O lugar que não merece nome. Onde há muitas vidas de gigantes os humanos moraram uma vez, e foram expulsos pelas terríveis criaturas que subiram as paredes dos abismos. O local ao qual muitos foram, mas ninguém nunca jamais de modo algum retornou. Aliás, apenas um retornou.
Ninguém o conhecia antes, mas sua chegada impôs o respeito que nenhuma tradição consegue. Ele se nomeou Elderek e entrou majestoso pelos portões da cidade, anunciando que tinha ido ao limite do mundo e voltado. Trazia na mão como prova uma cabeça com cabelos de serpentes mortas. Pediu uma reunião com o conselho, e no dia seguinte um comunicado oficial convocou a nós todos para ouvir sua história na grande assembléia. Ele contou que perambulou muito, esteve entre os homens bárbaros e não bárbaros, entre os gnolls e os kobolds, espiou os elfos e os anões. E descobriu o que muitos já suspeitavam: agora que os dragões prismáticos estavam extintos, todas as outras raças esperavam o momento oportuno de romper o tratado de não agressão e atacar a raça mais forte que sobrara: nós.
Desde então, todos estamos com os corações apreensivos. É por isso que vamos todos os dias ouvir o que ele nos diz. Sim, ele tem na voz a certeza de quem fala a verdade e conhece o caminho certo. Tem a reputação e a coragem de quem foi ao limite e voltou. E tem as respostas que precisamos ouvir. Por isso daqui a um passar de hora, eu estarei ouvindo mais um de seus discursos. E levarei comigo meu amigo cego, que não pôde ouvir antes por que esteve doente. Mas não há problema; hoje ele ouvirá.
“Raça dos fortes, é chegada a hora de reconhecer e assumir a sua posição de superioridade. O fogo que queima em vocês não deve ser apagado. Pelo contrário, o tempo de arrancar os galhos secos que jazem nos outros e os atirar para alimentar a vossa fogueira. Não mais permitireis ou dareis razão a arrogância dos estranhos! Uni-vos a mim nessa nobre causa! Se por um acaso pensardes que trago apenas a mensagem da guerra, é porque eu sou o vosso espírito de guerra que quer se libertar! E serei a guerra, até que tudo esteja em seu devido lugar!”
Eu perguntei ao meu amigo cego o que ele achou. E ele calou por longas três batidas de coração, até responder que havia algo de errado. Ora, o que um cego poderia saber do mundo. Talvez sua doença tenha apenas alimentado seu sentimento de inferioridade, e ele ainda não esteja pronto para se libertar. Mas eu não desistirei da tarefa de ajudá-lo. Amanhã eu começo meus empenhos.
Não tenho tempo para observar o nascer do sol. Preciso identificar se há traidores entre nós. Por isso eu vou discretamente a sala dos escravos. É onde os goblins se reúnem antes do trabalho começar. Coloco me próximo a entrada e me permito uma espiada ligeira: posso ver que a voz irritante vem de um goblin que se acha muito superior. Maldito, se ele apenas se lembrasse de como qualquer orc poderia esmagá-lo com as mãos… Ele diz besteiras do tipo se livrar do nosso jugo, tomar seu lugar de direito, levantar a vontade de guerra contra os senhores. Esses inferiores não merecem a nossa proteção. Eu os poderia destruir agora mesmo, mas preciso encontrar meu amigo e mostrar que estamos cercados de inimigos, até dentro da nossa cidade.
Antes eu reclamaria de uma cidade em que se leva um quarto de dia para encontrar alguém. Mas agora eu percebo que isso é muito melhor para proteção. Pobre de quem tentar nos invadir. Apenas lamento por não ter mostrado os traidores ao amigo ainda incrédulo. Mas será melhor assim. Teremos um mês completo de preparação militar, e desviar a atenção para preocupações menores pode atrapalhar o processo. Agora eu tenho que pensar que receberei espada e escudo, e poderei ser útil ao meu povo.
Um mês passa rapidamente quando se está muito ocupado. Fico feliz que meu amigo se tenha descoberto como ótimo ferreiro, apesar de sua limitação. Agora que já estamos muito organizados e treinados, podemos conversar com calma novamente. Ele me pede um passeio para fora dos portões, porque gosta muito e sente saudades de sentir a selva. Não há problema em se passar a folga com um amigo próximo. Faz tempo que não fazemos isso. Faz tempo que eu não contemplo o verde circundante. Ainda mais de dentro do verde. Muito tempo mesmo. Não há problema em me afastar da fortaleza um pouco mais que o normal.
Cheiro de suor e couro. Só os humanos se vestem com couro e suam assim. Meu amigo também percebe. Nós silenciamos e escutamos com atenção ao que a mulher diz. Mulher diferente. Muito bonita, vestida com panos suaves e de uma sensualidade que levantaria o defunto mais morto.
“Eu lhes disse. Os orcs estão muito organizados, e vão nos atacar a qualquer momento. Não podemos mais ficar acuados no canto enquanto eles crescem e se tornam mais poderosos. Logo eles quebrarão o acordo da Cruz de Ferro, e junto com os gnolls, goblins e kobolds, partirão em carga contra nós. Humanitatis, é claro, não fará nada para impedir, não somos nada para eles. Hora de pegar a espada. E não pensem que prego a guerra em vão. Eu serei o espírito da guerra até que tudo esteja novamente em seu devido lugar.”
Eles se foram.
O que Elderek estava fazendo aqui?
Se não fosse meu amigo cego, eu nunca teria percebido isso. No final, sua debilitação é uma bênção. Os olhos do coração vencem a maior das ilusões, basta saber usar. Coisa que nenhum de nós fez. Eu não fiz. E nem posso voltar e avisar os outros, porque estão embevecidos. Resta-nos previnir os que ainda não foram envenenados. Temos seis dias de caminhada até a fronteira, passando pelas montanhas.
No sétimo dia nós chegamos ao topo da montanha. Mais um dia de descida e estaremos em Humanitatis. Mas eu tenho que parar e contemplar. Posso ver cinco exércitos diferentes em formação. Cinco raças em prontas para um combate sem aliados. Os orcs estão em maior número e tem máquinas poderosas de combate. Eu pressinto o que vai acontecer. Vencerão a batalha aqui e tentarão marchar sobre Humanitatis, iniciando o derradeiro embate. De lá do abismo, um negror vem subindo e tomando o céu, como o alaranjado faria em um crepúsculo usual. Dentro da minha cabeça a voz de Elderek começa a ecoar. Quem eu vou prevenir? Os humanos traidores? Os elfos afrescalhados e arrogantes? Os anões ladinos e gananciosos? Trairei o meu povo?
Dar a mensagem é minha missão. Mais um dia de caminhada e eu descobrirei se ela será dada com o coração aberto e livre, ou com a espada zunindo e a mente roubada. E não importa a escolha, o resultado será o mesmo. As flores da guerra serão regadas com o sangue derramado.