A CARTA DE RESWALD KIRCHHEIMER

Novembro 23, 2008 at 9:00 pm (Histórias dos Bardos de Aeternitatis)

Espero que, a despeito da lamentável grafia, seja possível ler estas toscas palavras e extrair algum significado delas. Elas foram marcadas às cegas neste sujo pedaço de pergaminho. Eu até poderia iluminar magicamente o aposento onde lentamente apodreço a anos, mas tenho medo das imagens que a luz revelaria, sobretudo o aspecto das minhas mãos. Prefiro ficar envolto na silenciosa mortalha sombria de uma noite que para mim, parece eterna.

Esta carta é fruto do desespero que se abate sobre mim. A minha vida escorre cada vez mais rápido por entre os dedos esqueléticos do implacável ceifador. Mas eu não posso perecer, pois se isso acontecer, ele se libertará da sua prisão e sob o anátema da peste voltará a andar sobre a terra espalhando novamente a morte e a dor. Mais do isso, se eu falhar, perderei a chance de reencontrar neste mundo, a pessoa mais importante da minha vida. Por isso, preciso urgentemente de ajuda.

Mas você que está lendo esta carta deve estar se perguntando quem sou eu. Meu nome é Reswald Kirchheimer, um sacerdote que veio de uma família desprovida de valores materiais e morais. Da convivência com meus pais tenho lembranças vagas e dolorosas que aparecem na forma de imagens estáticas e borradas pintadas em fortes tons de vermelho. Elas retratam os espancamentos, a exploração nos campos de trigo, a fome e o frio, as orgias imundas, o estupro e morte da minha irmãzinha mais nova pelas garras do monstro que eu era obrigado a chamar de pai. Os abusos e maus tratos continuaram até que pudesse ter idade para pintar o último quadro da minha infância. Uma obra-prima, sem dúvida. Um casal humano sobre uma cama de palha. Seus corpos nus e mutilados pintados em fortes tons de vermelho. Seus olhos amargos e sem vida fitam o próprio filho que carrega uma pequena foice em sua mão esquerda. Queimei a casa e parti do pequeno vilarejo onde nasci. Sabia que seria linchado pelos demais habitantes se permanecesse. Estava sozinho, mas me sentia feliz por vingar a morte da minha irmã. Vaguei sem destino por algum tempo, roubando para sobreviver.

Meus dias como andarilho solitário foram breves. Contraí uma doença que teria me levado a morte, se eu não fosse salvo por um sacerdote. O poder milagroso de sua fé extraiu do meu debilitado corpo a moléstia. Nunca tinha visto nada parecido na minha vida e fiquei encantado com aquele homem abençoado. Eu pensei que se fosse como ele, minha irmãzinha ainda estaria viva e feliz. E então eu supliquei para ele ser meu mentor. O clérigo sorriu, se ajoelhou na minha frente e pediu para que repetisse as palavras que ele dissesse. Foi a primeira oração que ele me ensinou. Depois disso, cobriu o meu corpo com o seu manto e levou-me para um dos templos da sua divindade, para que eu recebesse educação apropriada. Depois de anos de estudo esmerado, fui ordenado como sacerdote e passei a andar pelo mundo na companhia de meu mentor com o objetivo de ajudar as outras pessoas e ensinar os preceitos da nossa divindade.

Muitas coisas aconteceram em minha vida como clérigo errante. Conheci amigos e adversários. Ajudei muitas pessoas, mas fui incapaz de salvar outras. São tantas histórias que ocupariam muitas e muitas páginas se fosse registra-las detalhadamente. Mas não tenho mais tempo e nem condições de fazer isso, por isso vou tentar concentrar meus esforços na descrição dos fatos realmente relevantes.

Já tinham se passado quinze anos desde que fui consagrado sacerdote e a minha devoção inquestionável foi fartamente recompensada pelo meu patrono divino na forma de poderes mágicos extraordinários e na capacidade de apavorar e dilacerar mortos-que-andam e almas sem descanso. Após de uma missão particularmente longa no outro lado do continente, meu mentor e amigo, que havia ascendido ao posto de sumo-sacerdote, veio até mim e me entregou um pequeno livro de orações. Nele estava escrita uma única oração. Era uma prece que permitia trazer uma pessoa morta de volta à vida. Meus olhos se encheram de lágrimas, embora não tenha deixado que nenhuma caísse pelo rosto, e me lembrei da minha linda irmãzinha brincando novamente pelos ensolarados campos de trigo. Rezei uma prece de profundo e sincero agradecimento a minha bondosa divindade e me preparei para voltar ao meu vilarejo natal. Antes de partir, o velho clérigo me deu um conselho que eu ignorei por completo, visto que estava eufórico com a possibilidade de trazer minha irmã de volta à vida.

Em poucos dias de veloz cavalgada percorri o caminho que separava o templo da pequena localidade agrícola onde nasci. Chegando lá, vi apenas desolação. Os vastos campos de trigos estavam estragados e queimados. As casas paupérrimas com suas portas e janelas quebradas revelavam que estavam vazias. Já tinha presenciado não faz muito tempo, uma paisagem semelhante. Uma misteriosa peste, junto com uma terrível seca, estava arrasando a região. Amarrei o cavalo em uma árvore próxima aos limites da vila e decidi seguir a pé pela rua principal. Sentia que estava sendo observado, embora não houvesse aparentemente ninguém vivo por perto. Agarrei com firmeza a arma mágica abençoada, ficando preparado para repelir qualquer ação hostil enquanto continuava a andar. Parei ao encontrar um cadáver apodrecido no meio da via. Devido a decomposição avançada do corpo, era impossível identifica-lo mesmo que fosse alguém conhecido. A sua mão direita segurava um pedaço de papel onde pude ler um curioso relato. Desde aquele fatídico dia, tenho diversos sonhos e pesadelos relativos a esse relato e sinto que talvez seja uma espécie de sinal que possa ter alguma utilidade. Por isso, tive o cuidado de anexá-lo junto a esta carta.

Por um momento me passou pela cabeça em ressuscitar o homem, mas decidi não faze-lo, pois seria muito sofrido para ele ver a filha morta novamente e além do mais, só poderia reviver uma pessoa por dia e essa seria a minha adorável irmãzinha. Rezei para que a alma daquele pobre homem tivesse um pouco de paz e decidi enterra-lo depois de realizar a ressurreição.

Prossegui em minhas andanças e ao passar pelas ruínas carbonizadas da minha casa, vi uma curiosa placa presa na porta com as inscrições ‘lugar maldito’. E eu pude ouvir claramente a voz zombeteira e suja de meus pais lá dentro. A porta de madeira podre foi dilacerada com um único golpe da minha arma. Entrei na casa, praticamente cego de ódio e disposto a dar aquelas almas malignas o verdadeiro descanso eterno. Vasculhei a casa a procura de algum indício daqueles malditos, mas não encontrei nada além de cinzas. Quebrei o que ainda poderia ser quebrado a fim de recuperar a razão e depois rezei para conjurar uma mágica que abençoasse a residência, evitando dessa forma que almas penadas fizessem dali um refúgio seguro.

Saindo da casa, caminhei em direção ao cemitério para finalmente rever a minha adorável irmãzinha. Chegando lá, vi que o local estava com muitas sepulturas e que várias delas tinham sido violadas. Para meu alívio, o local onde estavam os restos mortais de minha irmã, estava intacto. Pedi novamente por auxílio divino para me conceder força adicional de forma que a tarefa de cavar a terra fosse menos árdua. Fui atendido e com as mãos retirei a terra que cobria o corpo da minha irmã. Tudo que restava dela era o pequeno esqueleto que retirei com cuidado da cova.

Fechei os olhos e comecei a orar conjurando a mágica de ressurreição. Senti uma poderosa energia se acumulando na minha mão esquerda. Toquei o crânio com ela e abri os olhos para observar a aura divina que envolvia os ossos da minha irmã adorada. A aura brilhou intensamente por alguns minutos e lentamente foi se tornando cada vez mais tênue antes de desaparecer. Mas para minha imensa frustração, nada mais aconteceu. Ela não reviveu. E ajoelhado diante de seu esqueleto, eu chorei e gritei blasfêmias contra a divindade que eu escolhi prestar devoção.

Neste momento, fui cegado por uma intensa luminosidade. Quando minha visão se recuperou o suficiente para distinguir algo, percebi que diante de mim estava um ser humanóide gigantesco, com longas e belas asas feitas de plumas brancas. Ele olhou para mim com seus penetrantes olhos feitos de esmeralda e a sua voz tinha a imponência do trovão. Fui duramente repreendido pelo meu egoísmo em usar o dom supremo da ressurreição em primeiro lugar na pessoa que eu mais amava, ainda mais por ter sido doutrinado em vida religiosa a sacrificar meus interesses pessoais pela felicidade das outras pessoas. E ele me mostrou a imagem de um pai chorando desconsolado a morte brutal do filho. Disse-me que eu poderia ter salvado a criança com a ressurreição se tivesse esperado as ordens do sumo-sacerdote em vez de partir apressadamente para reviver a minha irmã. A divindade, continuou o celestial, sabia do crime que eu havia cometido na infância e que o meu primeiro encontro com o meu mentor foi planejado por ela para me oferecer um caminho e um sentido para a minha vida, evitando assim a tentação do mal. Ela ficou feliz por eu decidir espontaneamente seguir os seus dogmas e por ser um devoto exemplar. Mas apesar dos meus feitos em seu nome, ela não estava convencida de que eu era uma pessoa virtuosa a ponto de ter acesso ao poder de reviver os mortos, uma vez que eu não demonstrava arrependimento pelo assassinato de meus monstruosos pais e tinha muitas saudades da minha irmãzinha. Por isso ela decidiu me conceder o dom da ressurreição como forma de teste. E miseravelmente eu falhei.

Senti ódio de mim mesmo pela minha tolice e egoísmo. Mais do que isso, perdi a tão sonhada chance de trazer a minha linda irmãzinha de volta. Comecei a socar o chão e a minha própria cabeça e desejei morrer naquela hora. O celestial tocou o meu ombro e cantou uma melancólica canção que falava sobre morte e auto-sacrifício. Voltei a si e com dificuldade fiquei de pé. O emissário divino disse que por todos os meus esforços e pela dedicação aos dogmas da divindade, eu não seria destituído de meus poderes clericais, mas que ficaria impossibilitado de usar o dom da ressurreição até realizar um ato supremo de auto-sacrifício. Se fosse bem-sucedido, poderia usar esta dádiva novamente, inclusive em minha falecida irmãzinha. Eu aceitei a punição sem discordar e agradeci sinceramente a minha divindade por não me considerar indigno de carregar seu símbolo.

Antes de partir, o ser alado de olhos esmeralda me deu uma missão. Ele disse que o meu vilarejo natal foi assolado por uma terrível seca e a população exterminada por uma terrível e desconhecida doença. O mesmo fenômeno estava acontecendo em diversas localidades rurais na região. Estas informações não eram desconhecidas por mim e eu mesmo já tive contato próximo com os doentes quando fui destacado a coordenar um grupo de ajuda a um dos locais afligidos. Até aquele momento, não tínhamos nenhuma idéia de quem seria o responsável por tal catástrofe e sofrimento, mas muitos heróis e mercenários estavam atrás de potenciais suspeitos. A missão que me foi dada pelo celestial consistia em deter o avanço da moléstia, identificar e, se possível, punir o autor de tal crime. Ele me indicou como ponto de partida a cidadezinha de Calista, que ficava a uma semana de viagem a cavalo.

Suas últimas palavras, antes de desaparecer em uma explosão de luz divina, foram: “Prepare-se para passar por sua maior provação e lembre-se das funestas conseqüências em caso de fracasso. Você jamais estará sozinho nesta missão, mas nem sempre a companhia será agradável ou desejável. A maior das batalhas você deverá enfrentar sozinho, mas em caso de necessidade absoluta não hesite em buscar ajuda. Seja sábio”. Depois disso, devolvi o corpo da minha irmãzinha ao seu túmulo, enterrei decentemente o homem que estava abandonado na rua e, antes do crepúsculo, parti para Calista.

Ao chegar ao humilde vilarejo encontrei uma situação caótica. Os campos destruídos, o gado morto ou terrivelmente debilitado, as pessoas na rua clamando por alimento, água e salvação. A minha presença naquele momento, aos olhos daquela gente sofrida, parecia ser fruto de algum tipo de milagre. Através da minha capacidade diplomática, ofereci alívio e esperança à população e com meus poderes divinos pude ofertar um pouco de alimento e água aos mais necessitados. A cidadezinha já havia perdido mais da metade de sua população. Aqueles que não pereceram vítimas de doença, fome ou sede foram isolados em uma construção improvisada fora dos limites da cidade. Todas as pessoas que começavam a apresentar sintomas da moléstia ou que tinham contato muito próximo com os doentes eram obrigadas, sob pena de execução sumária pela população, a residir naquela edificação isolada. Segundo os relatos da população, o lugar foi construído por ordem de um paladino que chegou à Calista poucos dias antes do início da epidemia. Ele também era o guardião do local e cuidava dos doentes, pois o seu status de guerreiro sagrado o abençoava com a imunidade contra todas as doenças. De posse destas informações, decidi então, seguir até o local onde estavam confinados os doentes.

À medida que me aproximava do local, ficava evidente que a edificação foi construída às pressas e que era destinada a pessoas indesejáveis, já que o seu aspecto exterior era disforme e feio, lembrando mais uma prisão. As janelas eram protegidas por grossas grades e o portão feito de ferro sólido tinha uma pequena abertura coberta também por uma grade, que não permitia visualizar qualquer coisa no interior da construção. Bati três vezes na porta, até alguém se aproximar do portão. Uma voz masculina e forte se fez presente, perguntando quem eu era e o que eu queria. Respondendo os questionamentos iniciais, a pesada porta se abriu revelando um homem forte e bem constituído que veio me cumprimentar. Era o paladino que cuidava do local chamado de ‘isolamento’ pelo povo do vilarejo. Antes de permitir a minha entrada, ele me alertou para o alto risco de contágio da doença, mas eu o tranqüilizei dizendo que os meus poderes divinos poderiam curar qualquer doença que viesse a se incubar em meu organismo.

O interior da construção estava repleto de gente doente. Era possível ver desde de pessoas aparentemente saudáveis até doentes terminais horrivelmente mutilados pela peste. O ar estava contaminado pelo forte cheiro de pus e sangue, o que me deixava levemente enjoado, mas que parecia ser inócuo ao paladino ou aos doentes. Durante a visita pelas instalações precárias, o paladino me contava sobre as extremas dificuldades de ajudar os enfermos. Faltava comida, água, pessoas para ajuda-lo, praticamente tudo. Seus poderes divinos eram insuficientes para oferecer auxílio para todos e o número de mortos e infectados não parava de crescer. A situação, segundo ele, não estava mais crítica devido a idéia de fazer o ‘isolamento’ pois dessa forma o risco de contaminação era bastante reduzido. Vendo a dedicação do paladino, decidi ficar algum no ‘isolamento’ e ajuda-lo na sua nobre missão de ajudar as vítimas daquela moléstia.

Não foi difícil me acostumar com a dura rotina do lugar. Havia pouco tempo para descanso, pois os enfermos se amontoavam em todos os cantos da construção. Sentia-me engrandecido e satisfeito por fazer um bom uso dos meus poderes sagrados. A magia clerical que me permitia curar doenças foi de extrema importância na recuperação dos doentes e todos os dias antes de dormir a conjurava sobre mim para evitar que me tornasse portador da moléstia. Infelizmente, o auxílio mágico era o único método eficaz de curar a moléstia, o que limitava terrivelmente o número de pessoas que podíamos atender por dia. Os que eram curados podiam sair do isolamento e voltar à Calista. Nunca foi registrado um caso de reincidência da peste, mas todos os dias chegavam um ou dois enfermos novos. Os mortos eram abençoados e cremados em uma fornalha que ficava no subsolo. Três vezes por semana, o paladino ia até ao vilarejo para buscar algum alimento (a água vinha de um poço ao lado do nosso hospital improvisado) e também para oferecer alguma ajuda aos moradores de Calista. Neste dias, ele costumava a sair após o meio-dia e só voltava um pouco antes de anoitecer.

Cerca de duas semanas se passaram nesta mesma rotina. Ainda não tinha idéia sobre a origem da peste, mas ajudar a salvar o vilarejo da destruição pela doença era uma das minhas obrigações. Uma vez que a incidência de novos casos parasse e os doentes isolados fossem todos curados, eu poderia partir para outro lugar. Pelo tamanho do vilarejo e pela quantidade de doentes já atendidos, meus cálculos apontavam que eu precisaria permanecer em Calista por mais duas ou três semanas até que a doença não fosse mais ameaça. Entretanto algo terrível aconteceu e me impediu de deixar o ‘isolamento’ até hoje.

O paladino tinha ido até a cidade, como fazia regularmente, porém ele não retornou no horário de costume. Minha preocupação com a segurança de meu amigo crescia à medida que o céu era tomado pela escuridão noturna. Já estava pronto para sair e procura-lo, quando um dos doentes me atacou traiçoeiramente. Surpreendido pelo ataque, tive dificuldades em combater meu adversário, mas devido a fragilidade física dele consegui leva-lo a inconsciência depois de alguns socos e chutes. Ainda estava me recuperando da luta, quando vi alguém descendo as escadas que levam até fornalha no subsolo. Fui atrás dele e pude vê-lo acionando um mecanismo oculto que revelou uma passagem secreta na parede. Neste momento me prontifiquei para o combate chamando a atenção do homem antes que alcançasse outro aposento.

Para o meu espanto, ele caiu desacordado no chão e outra pessoa surgiu ao seu lado. Não, não era um ser humano ou coisa parecida. Era uma criatura abjeta e cancerosa, que exalava pura maldade e podridão. Certamente era o responsável pelas chacinas causadas pela doença. Chamei por auxílio divino e empunhando a minha fiel arma sagrada investi contra o monstro. Depois de três golpes certeiros, a criatura estava caída diante de mim com profundos ferimentos. Estava inerte, mas ainda viva e por isso preparei o golpe de misericórdia, algo que se mostrou um dos maiores erros da minha vida. A criatura havia fingido inconsciência e se aproveitou da minha demora em golpear para desaparecer. Como uma oração e um pouco de concentração conjurei uma mágica que me permite ver coisas invisíveis. Mas não era uma invisibilidade mágica da maneira que eu conhecia, porque eu não encontrei nenhum sinal dele no aposento.

Sentia apenas que alguma coisa estava errada comigo e foi neste momento que eu ouvi uma risada insana e inumana em minha mente, que lembrava a de meus pais quando eles me obrigavam a participar de suas abomináveis orgias. Essa gargalhada hedionda era da maligna criatura que de alguma forma, estava dentro do meu corpo. Neste momento eu vi minha irmãzinha sorrindo. Estava do lado do celestial de olhos de esmeralda. Fiz uma prece pedindo para a minha divindade não deixar a criatura cancerosa sair do meu corpo. Seria ao mesmo tempo, prisão e carcereiro para o ser abominável que causou tanta dor e sofrimento a pessoas inocentes. Ao ver uma aura esverdeada cobrindo o meu corpo, tive a prova de que a minha oração tinha sido atendida. E pude sentir a fúria e frustração do meu odiado adversário.

Adormeci profundamente após este acontecimento e ao despertar no dia seguinte continuei os meus trabalhos normalmente. Desde aquele dia não tive mais notícias de nenhum caso novo e após uma semana todos os doentes foram curados. Deixei com o último ex-paciente uma carta endereçada para o sumo-sacerdote, aonde explicava tudo o que aconteceu. Certamente esta carta não chegou ao destinatário, pois sei que meu melhor amigo não me abandonaria. Também não tive mais notícias do paladino e acredito que aquele homem nobre e caridoso tenha perecido em uma vil emboscada preparada pela criatura.

Lacrei a porta com um símbolo mágico para evitar intrusos e curiosos e também para proteger os outros de mim mesmo, já que o maldito que reside dentro de mim testa a minha determinação todos os dias tentando controlar a minha mente. Mas até hoje, a minha vontade se mostrou superior e todas suas tentativas fracassaram. Explorei todos os aposentos secretos do local e fiquei estarrecido com que eu vi. Não gosto de lembrar das coisas que vi ali e destruí tudo o que eu pude. Mas preciso dizer, ou melhor, alertar, que encontrei coisas realmente horríveis e abomináveis. Selei estes aposentos profanos com magia depois de purifica-los, pois o que ainda há neles não deve ser vislumbrado.

A presença virulenta da criatura em meu organismo me aflige dia após dia. Minhas magias divinas de remoção de doenças se mostram inúteis, pois continuo eternamente doente, mas posso, felizmente, curar os sintomas físicos da moléstia. Também posso criar magicamente, água potável e alimento que é o que me permite sobreviver neste lugar abandonado.Apesar de conseguir anular a debilidade física provocada pela doença, a minha aparência começou a sofrer lentas e progressivas mudanças. Não sei no que estou me transformando, mas da última vez que vi minhas mãos quis cortá-las e queimá-las. Desde então, passo o dia imerso na mais absoluta escuridão.

Por incontáveis dias eu rezei pedindo para alguém aparecer neste lugar maldito e me ajudar. Por incontáveis dias fiquei esperando, sem sucesso, o atendimento às minhas orações, até que um dia eu senti o perfume de flores do campo. Uma pequenina e delicada mão tocou a minha face e então me lembrei da carta que o homem que encontrei morto na rua escreveu. Afastei-me e clamei pela energia divina capaz de repelir mortos-vivos, mas nada aconteceu. Minha hostilidade acabou quando senti o abraço pueril e delicado da criança e, comovido, também abracei seu corpo quente e macio. Perguntei o que ela estava fazendo aqui e ela disse que veio me ajudar. E mais uma vez orei para a minha divindade em profundo agradecimento.

Bem, acho que esta narrativa está demasiadamente longa e cansativa. Todas as informações relevantes, e algumas irrelevantes também, estão registradas aqui. Creio que isso seja o suficiente para compreender a gravidade da situação, mas se não puder ou não quiser ajudar, peço que entregue este pergaminho para alguém disposto a prestar socorro imediato.

Meu tempo é curto e sinto que infelizmente não poderei ressuscitar a minha irmãzinha, mas o mais importante é deter o monstro que está dentro de mim antes que ele saia e cause mais morte e sofrimento. Se essa ameaça puder ser detida definitivamente, minha morte não terá sido em vão.

Sinceros agradecimentos,

Reswald Kirchheimer.

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