90 MINUTOS
De 01:20 à 01:30 da madrugada.
A visão do edifício onde moro renova minhas esperanças e proporciona-me força adicional para suportar a dor do profundo ferimento que sangrava em abundância. Apesar do movimento de meu braço direito estar severamente restrito, retiro o molho de chaves do bolso e encaixo sem demora a uma das muitas chaves na fechadura do portão feito de grades de ferro. Antes de abrí-lo, olho rapidamente para o relógio e vejo que ele marca exatamente uma hora, vinte minutos e quarenta e sete segundos. Falta muito pouco tempo, mas acredito que seja o suficiente para chegar até meu apartamento. Tem que ser suficiente! Apressado, empurrei o pesado portão e em um quarteto de longos passos, alcancei a porta de vidro fosco que permite o acesso ao corredor de entrada.
Assim que abri a porta e pisei no tapete gasto e esverdeado, olhei para meu lado esquerdo e vi o porteiro sentado em sua mesa. O radinho azul de pilha, que fora presente meu para o bom homem, está ligado e toca uma música ironicamente familiar: “todos os dias antes de dormir, / lembro e esqueço como foi o dia: / sempre em frente / não temos tempo a perder. Mas não consegui seguir adiante imediatamente, pois fui eletrocutado pelo chocante aspecto do funcionário do prédio. Não havia olhos, nariz, boca, orelhas, nada. A face que vejo é apenas uma pasta sanguinolenta e irreconhecível. Sobre a mesa de controle do interfone encontro uma lixa de unha coberta com uma mistura de sangue fresco, pele e carne enrolada em um singelo bilhete: “Foi demorado cuidar deste homem. Mas com a nossa filhinha será mais fácil. O nosso tempo, amor, está acabando. Não demore Beijos apaixonados. 01:07″.
Rasgo o bilhete ensangüentado, mas na hora em que ia correr em direção aos elevadores, uma luz verde acende sobre o número 702 ao mesmo tempo em que ressoa o inconfundível barulho do interfone. Mais rápido que um raio, tirou o fone do gancho e o levo até o ouvido enquanto grito completamente consternado:
- Desgraçada! Se tocar na nossa filha eu te mato!
Uma voz feminina, acompanhada por um leve chiado, responde asperamente:
- Desgraçado é você! Eu não quero morrer! Nós duas estamos infectadas e eu sei que você só tem uma ampola. Se você leu o relatório do projeto, sabe que o vai acontecer conosco. Prefiro matar nossa a filha a ter que vê-la daquele jeito. O processo já está começando!
Mesmo abafado pelos gritos histéricos da minha mulher, posso ouvir o lamento de um pranto infantil e consternado arremesso o fone com violência sobre a mesa e prossigo meu caminho. O relógio acima do grande espelho que adorna a parede em frente aos dois elevadores, marca uma hora e vinte e três minutos. Aperto incessantemente os botões, xingando o equipamento com todas as palavras chulas que aprendi ao longo da minha vida. Percebo então que ambos os elevadores estão convenientemente parados no sétimo andar. Extravaso um pouco da minha ira, quebrando o espelho com um chute e corro em direção às escadas.
A porta corta-fogo é delicadamente aberta com um vigoroso encontrão e deparo-me com o inquietante empecilho de encontrar as escadas completamente às escuras. Um arrepio involuntário percorre meu corpo inteiro e não posso conter o tremor que se irradia pelos meus membros. O primeiro passo é vacilante, mas ao me lembrar do que está em jogo, tento afastar o pavor que tenho do escuro e subo os lances de escada o mais rápido que possível. Lágrimas de dor escorrem fartas pelo meu rosto cada vez que tropeço nos degraus sombrios, mas não posso sequer pensar em desistir. Sinto o corpo cada vez mais pesado, cada vez mais dolorido, cada vez mais amedrontado. O esforço em prosseguir na minha desajeitada marcha ascendente é tamanho que meus pulmões ardem cada vez que respiro e posso sentir as veias e artérias das minhas pernas quase se romperem a cada contração muscular. Procuro manter a minha desperta e vou contando os degraus para não correr o risco de encerrar minha subida no andar errado. O empenho mental em manter a contagem de degraus é considerável, pois mesmo em movimento e com os olhos abertos, a escuridão ilude meus olhos trazendo imagens fraturadas de horríveis pesadelos tendo como protagonista a minha adorável filhinha. Os mais amenos a mostram morta, das maneiras mais repulsivas possíveis. Nos piores, capazes de enlouquecer uma mente frágil, ela está viva e fazendo coisas realmente assustadoras. E no final de cada fragmento desses, posso ouvir a assustada voz da minha esposa dizendo: “O processo já está começando!”
Os pesadelos cessam no momento em que a minha mente alerta-me sobre a contagem dos degraus. Completamente esgotado, abro com dificuldades a porta-corta fogo e vejo que estou realmente no sétimo andar. Um olhar rápido permite-me ver que os dois elevadores tiveram suas portas travadas de propósito, para que não fossem usadas. Uma nova consulta ao relógio de pulso aumenta a minha tensão, pois gastei preciosos três minutos para chegar até aqui. Para piorar, minha visão começa a ficar turva devido à perda de sangue ocasionada pelo ferimento à bala que recebi. Ao pensar nisso, decido preparar-me antes de entrar em meu apartamento. Transfiro o conteúdo da ampola para uma pequena seringa descartável e a acomodo no bolso interno do terno. Pego a pistola que me feriu, empunhando-a com a mão esquerda e começo a caminhar em direção ao apartamento 702, que fica no fim do corredor. Ao chegar perto da porta percebo que ela está entreaberta e que a luz da sala está acesa. Também posso ouvir alguns sons extremamente estranhos e irreconhecíveis provenientes ao que me parece da cozinha. Sem hesitar, abro a porta e grito com a arma preparada:
- Andréa! Cadê a Natália? Cadê a nossa filha?
Agora tenho certeza absoluta que alguém está na cozinha, pois recebo como resposta o som de um choro intenso recortado por soluços acompanhado pelo barulho de passos leves e apressados. Antes que eu possa aproximar-se da porta da cozinha, uma sombra gigantesca e vagamente humanóide projeta-se ameaçadoramente em uma das paredes da sala. Seguro a arma com a maior firmeza possível, utilizando as duas mãos para isso. O dedo indicador da mão esquerda permanece encostado no gatilho enquanto o tamanho e formato da sombra altera-se. De uma imagem humanóide imensa, atroz e deformada ela passa gradualmente a formar o semblante de um pequeno ser humano de cabelos longos e esvoaçantes até que surge no aposento uma delicada menininha vestindo uma camisola azul-claro.
Diante da imagem da pequena Natália, o semblante de tensão em meu rosto é transmutado em uma expressão de felicidade e principalmente alívio. Agacho-me, apoiando um dos joelhos no chão, ao mesmo tempo em que guardo a pistola na cintura. Olho rapidamente para o relógio e vejo que são exatamente uma hora, vinte e sete minutos e quarenta e oito segundos. Logo em seguida, abro os braços para acolher a minha filha e falo com um sorriso rasgando o rosto:
- Anjinho do papai! Venha aqui me dar um abraço!
Natália hesitou por um momento, como se não tivesse me reconhecido de imediato, mas logo veio célere em minha direção com seus delicados cabelos louros encaracolados caindo por sobre o rosto. A pele, antes branca como o mais puro leite desnatado, está bastante vermelha. Seu nariz, também muito inchado, escorria e era quase impossível vislumbrar seus brilhantes olhos verdes, como o mais raro jade, pois estavam ocultos pelas lágrimas.
Meus braços envolveram com considerável força o pequenino corpo da minha filha quando ela chegou até mim. Enquanto mantenho o abraço, ouço claramente o ritmo frenético das batidas do coraçãozinho de Natália e meus olhos ainda procuram por algum sinal da minha esposa Andréa enquanto falo:
- Está tudo bem, meu anjinho. Está tudo bem. Não vou deixar ninguém te fazer mal.
Para tranqüilizá-la, beijo levemente a sua bochecha esquerda e então percebo que inúmeras pústulas escarlates cobrem seu pescoço. Uma expressão de horror puro surge em rosto, ao lembrar-me que as pústulas são o início do processo de infecção conforme consta um dos relatórios do projeto. Rapidamente, desfaço o abraço e procuro a seringa que está no bolso interno do terno. Ao encontrá-la, seguro com firmeza o braço esquerdo de Natália e preparo-me para aplicar a injeção, temendo em meu íntimo para que não seja tarde demais. Percebo que a minha filha tenta se desvencilhar com ímpeto e vejo o medo em seus inocentes olhos e então eu me lembro que o medo que ela tem de agulhas é maior que o pânico que me assola quando estou imerso na escuridão. Abro um sorriso e sussurrando docemente para ela procuro acalmá-la:
- Princesinha, eu sei que tem medo, mas se não tomar esse remédio você vai ficar dodói. E se você ficar dodói não vai poder brincar. É isso que você quer?
Os apavorados olhos de Natália estavam completamente afixados na ponta de longa e fina agulha, mas ainda assim ela respondeu, com a voz trêmula:
- Não papai. Não quero ficar dodói. Só não deixa doer muito, por favor.
Minha resposta vem em forma de um beijo no local do braço onde aplico a injeção. Sem demora, perfuro a pele, arrancando um grito de dor de Natália, e injeto o mais rápido possível a solução transparente que se encontra na ampola. Ao terminar o procedimento, deixo a seringa sobre o sofá e abraço com ternura a minha filha. Olho uma vez mais para o relógio e vejo, bastante aliviado, que ele marca uma hora, vinte e nove minutos e cinqüenta e oito minutos. Neste momento, lembro que ainda existia um assunto pendente: Andréa. Olho nos olhos de Natália e com meus dedos limpo as últimas lágrimas que teimavam macular seu rosto, enquanto pergunto:
- Anjinho, cadê a sua mãe?
Natália abaixa a cabeça, como se estivesse bastante envergonhada. Seus longos cabelos caem para frente formando uma cascata dourada que cobre completamente seu rosto e sua mão direita aponta em direção à cozinha:
- Mamãe está lá. No forno de microondas.
Ao ouvir tal resposta, lembro-me dos fragmentos de pesadelos que tive na escada e penso em sacar a arma, mas prefiro perguntar novamente para a minha filha:
- Anjinho, cadê a sua mãe?
Antes que Natália possa me responder, sou surpreendido pelo alto e irritante apito intermitente do forno de microondas, indicando que alguma coisa acabou de ficar pronta. Meus olhos, injetados de terror, se voltam para a cozinha, enquanto tento, inutilmente, pegar a pistola que guardei na minha cintura. Sou assaltado por desagradáveis pensamentos sobre minha esposa, minha filha e o microondas. Então ouço Natália sibilar algo ininteligível.
Ao olhar novamente para Natália, vejo que sua cabeça está erguida. O semblante angelical da minha adorável filhinha é o mesmo, porém meu corpo é imobilizado por um horror imensurável quando contemplo seus olhos, que antes eram verdes como o jade, mas que agora tem um aspecto indescritível. E a última imagem que vejo antes de pequeninas mãos esmagarem minha traquéia, é a de um sorriso singelo e inocente que revela coisas farpadas no lugar de dentes-de-leite…