Parte IV - Chuva de lágrimas.
Avanço com passos rápidos e decididos em uma feroz investida. Posso sentir o chão ceder sob meus pés, deixando profundas pegadas no barro fresco. Durante a corrida ergo a espada sobre a cabeça, segurando-a firmemente com as duas mãos. Após o quinto passo, minha arma desenha um arco descendente visando atingir meu inimigo no crânio desprotegido, aproveitando a sua aparente surpresa com a minha iniciativa no combate.
Ele defende meu ataque com a sua espada de gelo, deixando claro que a resistência dela é tão grande ou até superior ao aço temperado nas mais quentes forjas. Nossas armas se cruzam sob a chuva pesada e por um breve momento ocorre um duelo de forças. Fico impressionado com a potência muscular dele, provavelmente fruto de algum pavoroso ritual profano. Nossos rostos se aproximam e ao fitar novamente sua enigmática face borrada, ouço novamente em minha mente a insidiosa frase:”’quero… voltar… para… casa…”.
Valendo-se de sua força física superior, ele me empurra com o objetivo de afastar-se de mim. Consegue ser bem sucedido em seu intento e recuo dois desajeitados passos, mal tendo tempo de preparar a arma para me defender de seu ataque implacável.
Consigo aparar o vigoroso golpe, mas sinto os dedos das minhas mãos ficarem dormentes devido ao frio sobrenatural gerado pela espada de meu inimigo. O poder congelante da arma, aliada à força e perícia de seu usuário, esfacela a lâmina da minha espada, transformando o símbolo e orgulho da minha linhagem, em dezenas de pequenas e patéticas lascas de metal.
Aturdido pelo ataque anterior, não esboço qualquer reação quando ele, de forma veloz e precisa, provoca um profundo corte em minha coxa direita como a terrível lâmina gelada. Caio ajoelhado antes do último estilhaço da minha espada tocar o solo. Em vez da lancinante dor do ferimento causado pela arma branca, sinto a agonizante dormência do congelamento.
O fim é previsível. Lembro-me de minha mãe e agradeço silenciosamente por ela já ter falecido.
Começa o nosso derradeiro diálogo. Meu vitorioso oponente, que possui uma expressão tão fria quanto a neve eterna das mais altas montanhas, desta vez toma a iniciativa.
- Você sabe qual é a sua sina?
- Sim, eu sei.
Ele prepara com extrema calma a espada de gelo, a fim de desferir com perfeição o golpe de misericórdia. Pela posição será um golpe na altura do coração. Certamente é uma ironia com o sobrenome. Ouço com atenção suas palavras finais:
- Por você ser meu irmão de sangue vou mata-lo com a minha técnica mais refinada. Seu nome é calafrio do vento cortante. Orgulhe-se, pois muito poucos receberam esta honra.
Ainda tento cumprir a promessa que fiz a ela. Lábios e língua se contorcem para emitir uma última frase. Mas nenhum som sai da minha boca.
Tarde demais.
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Está chovendo intensamente.
Certa vez, quando ainda era uma criança, minha mãe contou que a chuva era formada pelas lágrimas daqueles que choram de dor e saudade pelos entes queridos que se foram e não podem voltar.
Fracassei em minha missão e o preço por esta falha imperdoável é a impossibilidade de voltar para casa. Mas o meu algoz, à sua maneira, também está privado de obter a redenção do descanso tranqüilo oferecido pelo aconchego do lar. O sangue fraterno que corre em nossas veias, desde aquela tempestade, compartilha a terrível maldição do exílio eterno.
Epílogo
E esta é a história contada pela estátua.
Admito que parece inacreditável, mas se algum de vocês se perder na Floresta Aeternitatis em um dia de tempestade, certamente encontrará uma estranha clareira circular rodeada por muitas e vigilantes árvores. No interior da circunferência está a figura de um homem agachado com o joelho esquerdo apoiado no chão e as duas mãos sobrepostas no lado esquerdo do peito. Seu rosto cristalino revela uma expressão de grande pesar e sua boca tenta proferir uma última e incompleta palavra.
Fique próximo a ela para conseguir ouvir a história que acabei de recontar, palavra por palavra.
E você jamais a esquecerá.