Parte II - O encontro no círculo.
O estrondo estremecedor de um trovão liberta minha mente do transe fazendo-me retornar a sombria floresta castigada pela tempestade. Minha percepção foi claramente alterada, pois ao me refazer da desorientação causada pelo súbito despertar, vejo que não estou mais naquela trilha.
Meus olhos perscrutam rapidamente o local onde estou e percebo que me encontro agora no centro de uma grande clareira que tem a forma de uma circunferência perfeita. Tenho a impressão de estar em uma arena, ou algo do gênero, devido ao perturbador círculo que deve ter cerca de nove metros de raio. As árvores espremem-se nos limites da circunferência, formando uma massa tão compacta quanto uma muralha, impedindo-me de vislumbrar quaisquer acessos que eu poderia ter utilizado para chegar neste lugar tão peculiar. Sob o contraste luminoso dos raios, elas parecem lançar olhares penetrantes em minha direção e parecem estar ali esperando algum acontecimento iminente. Os únicos sons audíveis são das gotas de chuva caindo sobre o solo encharcado sendo regularmente silenciados pelos brados dos trovões.
Subitamente as árvores desviam seus olhares mortiços para uma posição à minha direita e simultaneamente sinto um intenso arrepio como se fosse provocado por um frio glacial. Não estou sozinho.
Para minha surpresa, vejo, não muito distante de mim, um homem parado em pé trajando uma armadura de batalha tão branca quanto as nuvens que decoram o céu em um ensolarado dia de verão. A sua composição, pelo que meus experientes olhos dizem, não se assemelha a nenhuma liga metálica conhecida, mas sim a couro curtido e enrijecido na forma de grandes escamas reptilianas sobrepostas. Na bainha simples repousa placidamente uma arma com o tamanho e forma de uma espada longa cujo cabo possui um curioso aspecto vitrificado.
Usando as duas mãos ele retira cuidadosamente o elmo branco de detalhadas feições draconianas. Olho para seu rosto e meu coração por um súbito momento se acelera não conseguindo disfarçar a crescente sensação de satisfação. Depois de dez longos anos de procura finalmente eu o encontrei!
…
Mas não pode ser ele! Deve se tratar de uma alucinação proveniente da minha mente esgotada, pois há algo terrivelmente errado em sua fisionomia.
Parte III - O prelúdio de uma tragédia.
A dúvida se desfaz completamente depois de um breve período de silêncio, quando ele finalmente fala comigo:
- Estava esperando por você.
Se não fosse pelo seu inconfundível tom de voz, calmo e suavemente rouco, jamais o reconheceria. Seu rosto revela um indecifrável enigma para mim. Os longos cabelos negros molhados pela chuva, caem despreocupadamente sobre a sua face, entretanto seria possível ver todos os seus detalhes faciais. Só que, inexplicavelmente, não consigo fixar suas feições em minha mente. Seu rosto, aos meus olhos, parece distorcido. O único traço marcante é a extrema lividez da sua pele, que chega a ponto de rivalizar com a cor da armadura.
A sua presença emana uma aura maligna tão intensa que a sinto arrancar violentamente de meu espírito pedaços da minha determinação e vontade de viver. Hesito por um momento imperceptível, mas não recuo um passo sequer. Não me permito realizar tal ato, não depois de todos os sacrifícios que fiz com o único objetivo de encontra-lo.
Retiro minha fiel espada, tesouro da família a gerações, da bainha decorada com ramos de oliveira prateados. A lâmina, forjada com extremo cuidado e dedicação por um dos mais hábeis ferreiros conhecidos, reflete o brilho eletrificado dos relâmpagos.
Observo atentamente o meu adversário, que outrora foi meu melhor amigo. Mas tudo que vejo na minha frente é o reflexo da corrupção e do pecado. Seu coração puro foi envolvido e dilacerado pela tenebrosa e impiedosa garra do mal. Com pesar, constato que tudo que foi dito sobre ele nestes últimos anos é a cruel e dolorosa expressão da verdade.
Eu espero que um dia ela possa me perdoar por não revelar a ele as suas últimas palavras, mas pela memória de todos que o amavam, só me resta agora uma única coisa a fazer. Preparo a espada para a luta e falo:
- Desculpe-me pela demora. Trouxe para você a misericórdia da morte.
Em um movimento extremamente rápido e habilidoso, meu oponente faz surgir em sua mão direita a espada de cabo vítreo que estava embainhada. A lâmina de sua espada longa, a exemplo da armadura, não é feita de aço ou de outro metal. O aspecto é o de um pedaço cristalino de gelo moldado de forma a se obter uma arma onde lâmina e empunhadura formem uma peça única. As desafortunadas gotas d¿água que tocam a arma são imediatamente transformadas em pequenos e frágeis cristais de gelo. Sua voz se faz presente novamente, pós o ribombar de um trovão:
- Que ela fique com você. Jamais descansarei verdadeiramente enquanto não alcançar o meu objetivo.
Ele faz uma breve pausa e prossegue:
- Tudo o que eu quero é voltar para casa.
Um relâmpago certeiro fulmina uma das árvores próximas, espalhando pedaços de madeira carbonizada dentro do círculo. O som ensurdecedor do trovão emudece meu grito carregado de frustração e tristeza. É o início de nossa trágica batalha.