Posted by: Rodrigo Narcizo | Maio 15, 2008

A Tempestade dos Exilados (prólogo e parte 1)

Prólogo

Boa noite a todos os freqüentadores deste agradável estabelecimento. Não tenho a intenção de perturbar a refeição de vossas senhorias, mas peço humildemente algumas peças de cobre para que eu possa pagar por um prato de sopa e um pedaço de pão, pois meu debilitado organismo necessita de alimento quente para suportar o frio desta tempestuosa noite, que cobre com sua tenebrosa mortalha, os céus desta localidade.

Como sou recém-chegado, é minha obrigação fazer as devidas apresentações. Meu nome é Lywellan, e sou um artista errante, vítima de uma malfadada viagem. Eu e meus companheiros estávamos cruzando a Floresta Aeternitatis quando fomos surpreendidos por uma terrível tempestade. Acabei perdido e desprovido da maioria de meus pertences. Depois de vários dias de penosa caminhada consegui sair da floresta e a muito custo chegar até aqui.

Fico imensamente feliz com as generosas doações recebidas. Como agradecimento, vou contar-lhes uma história ocorrida durante a minha solitária jornada a esmo pela floresta castigada pela intensa chuva. É um relato que ouvi de uma estátua feita de puro gelo. Sei que parece algo fantasioso, mas garanto pela minha vida que é totalmente verídico.

Reproduzo suas palavras com extrema fidelidade, pois elas foram eternamente afixadas em minha memória.

Parte I - A caminhada através da floresta.


Está chovendo intensamente.

As gotas estraçalham-se em rápida sucessão sobre a veste metálica que cobre meu corpo provocando estalos altos que assemelham-se aos gemidos de almas insepultas. Elas trazem recordações da minha tenra idade e da história que minha falecida mãe contava sobre a origem da chuva.

Minhas botas afundam sobre o terreno lamacento e escorregadio enquanto os relâmpagos provocam rachaduras brilhantes no espesso céu cor de grafite. O vento uiva ao meu redor como um lobo faminto, ferindo meu corpo com um açoite invisível de vento gélido e afiado. As árvores duramente golpeadas pela tempestade revelam toscas formas humanóides retorcidas por uma terrível agonia.

Mesmo caminhando a favor do vento e com o rosto cuidadosamente protegido, uma audaz gota de chuva atinge minha testa e desliza lenta e tortuosamente pela minha face marcada pelo tempo e pelo esforço empregado na longa jornada. Ela encontra seu fim ao repousar caprichosamente em meu lábio inferior.O seu sabor não é o previsível paladar salgado e sujo de suor e sim o inconfundível gosto rubro e ferroso de sangue. É um sinal que minha sina se cumprirá em breve. Eu sei e tenho absoluta certeza que ele também sabe.

Prossigo por uma estreita e sinuosa trilha, protegido da escuridão total apenas pela rápida iluminação gerada pelos constantes relâmpagos. A tempestade transforma-se em feroz resistência dificultando o meu avanço. Em meio a passos dolorosamente lentos minha consciência desprende-se do mundo exterior e começa a entoar baixinho uma única frase em tom de desesperada súplica: “quero… voltar… para… casa…”. A repetição lenta e hipnótica quase não me deixa notar que depois de algum tempo não é mais a minha voz que diz esta frase.

É a dele.

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