Postado por: Rodrigo Narcizo | Abril 14, 2008

Oração de Despedida

Mais uma vez meu organismo espectral mescla-se à trágica noite. O bando de corvos famintos novamente se reúne ao redor do insidioso poço que esconde em suas profundezas abissais um terrível e silencioso segredo.

Uma vez unido às trevas impenetráveis de uma noite sem lua, acaricio com cruel delicadeza o crânio de uma ave próxima a mim. A sua única reação antes de ter sua força vital completamente drenada é abrir as asas e tentar pateticamente alçar vôo. Como conseqüência de seu derradeiro ato de sobrevivência, o pássaro de tonalidade similar ao carvão precipita-se já morto para dentro do poço. Por minutos incontáveis eu tento ouvir o ruído do cadáver chocando-se contra o fundo, porém a única resposta que recebo é um silêncio inquebrável e misterioso…

Meu corpo incorpóreo flui pelo ar em direção à cidade morta que abriga os ossos putrefatos que em um dia longínquo estavam recobertos por sangue, nervos e carne. E durante o caminho até a minha residência pondero uma vez mais a relação entre o mistério do poço e o fim amargo da minha outrora e bela cidade natal.

A vasta plantação de trigo, calcinada, estéril e arruinada, é uma visão infinitamente mais bela e poética do que os incontáveis ossos grotescamente retorcidos pela terrível peste que vitimou tantas pessoas, inclusive a mim.

Ao entrar novamente em meu lar e sepultura, revejo meu cadáver descarnado repousando no tálamo perfumado com a fragrância da morte e da putrefação. E repousando enroscado sobre minhas costelas deformadas, está um fino cordão de platina, ainda reluzente, que ostenta um pingente de ouro branco forjado na forma de dois corações sobrepostos. Meus dedos tocam de maneira inócua a bonita jóia e mais uma vez, torturado pela tristeza e pelo abandono, derramo uma lágrima morta e sombria.

Caio ajoelhado à beira da cama e encontro aberta sobre o chão imundo, a carta que leio todas as noites como se fosse uma oração profana. Reúno a plenitude de minhas forças para entoar um lamúrio pavoroso das profundezas da minha alma corrompida e mais uma vez, sob o olhar rubro dos corvos que se amontoam na janela do quarto, reproduzo com lancinante dor, as derradeiras palavras da mulher que tanto amo.

“Perdão por abandoná-lo meu amor, mas não quero morrer aqui. Todos os sobreviventes já abandonaram o vilarejo e apenas os corvos, que aparecem no início de cada noite para comer os últimos grãos secos de trigo e entoar ao redor do poço uma canção medonha que dura quase a noite toda, ousam nos fazer companhia.

A comida e a água estão acabando e estou muito fraca e febril. Não existe mais vestígio de esperança para este lugar amaldiçoado. Espero ansiosa pela chuva fértil e pelo vento refrescante enquanto a luz solar queima a minha pele. Choro lágrimas embrutecidas todos os dias tamanho é meu desespero. Não agüento mais tanto sofrimento!

Preciso ir embora deste local infernal e torturante. Não consigo entender o porquê de sermos castigados de forma tão impiedosa. O que fizemos de errado? Não é justo, não é justo…

Espero que você compreenda a minha decisão de partir sozinha, pois não vou conseguir carregá-lo até a cidade mais próxima. Não tenho condições de levá-lo comigo. Deixarei contigo o presente que me deu com tanto amor, porque não sou merecedora dele.

Queria ter a coragem de tirar a sua vida para que não sofresse mais, mas sou tão covarde que não consigo realizar tamanho ato de misericórdia.. Tudo o que me resta fazer é rezar para que a morte o leve embora o mais breve possível e que enfim você tenha o seu merecido descanso eterno.

Perdoe-me, meu grande amor, pelo que estou fazendo, pois eu sei que jamais vou me perdoar.

Adeus”

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