Era uma vez um jovem e simpático menestrel. Desprovido de nome e de pátria, vagava a ermo pelas vastas terras do glorioso reino, que ocupava todo o mundo conhecido. A luminescência criativa de seus belos olhos esverdeados não combinava com o restante de seu rosto feio e desalinhado. Entretanto o bardo não se importava com a sua aparência pessoal, pois a maior beleza que possuía não era possível de ser contemplada com os olhos. A despeito da sua mudez, o rapaz era um inigualável flautista e tocando seu rústico instrumento de madeira atingia, com facilidade, o coração e a mente das pessoas. Nos idosos, ele despertava tenras lembranças da juventude ao tocar músicas quase esquecidas atualmente. Com a mesma dedicação acalentava os corações amargurados dos desventurados com canções alegres e comoventes. Tocava canções de amor para os enamorados, baladas alegres para as festividades, melodias melancólicas para as ocasiões de despedida…
O encanto de suas melodias ganhou rapidamente notoriedade por todo o reino, o que fomentou todo tipo de especulações e histórias. Havia alguns pontos em comum em todos os relatos, mesmo nos mais exagerados e mentirosos. Estas convergências despertavam tanto um fascínio quanto uma intrigante curiosidade sobre o anônimo menestrel. As histórias contavam que o bardo sempre chegava às localidades junto com os primeiros raios de sol voltando a pegar a estrada antes da noite apagar qualquer vestígio da luz solar. Por alguma razão insondável o bardo jamais dormia em uma cidade e nunca visitava a mesma localidade duas vezes. Também era intrigante o fato de ninguém ser capaz de lembrar qual foi a primeira cidade em que o menestrel se apresentou apesar dos governantes de diversos locais clamaram para seus domínios tal distinção. Paradoxalmente outro ponto de concordância entre as diversas narrativas era o fato das canções tocadas pelo bardo ficarem gravadas profundamente na mente, ou melhor, nos sentimentos das pessoas como se fosse uma lembrança eterna da apresentação do bardo. Quando dominada pela raiva, a pessoa se lembrava de uma música serena e contemplativa; no horror do desespero, a mente tocava uma música que restaurava a fé e a esperança; no momento do luto era possível ouvir uma melodia de alento.
Independente das muitas teorias e hipóteses formuladas pelos habitantes do reino acerca destes fatos misteriosos, o bardo gozava de um prestígio cada vez mais crescente. Assim que era reconhecido, normalmente pelos guardas que vigiavam as entradas de uma cidade, os portões eram abertos e a população relegava temporariamente seus afazeres para recepcionar o flautista. Seu aspecto visual era desagradável, não só pelo rosto peculiar, mas também pela roupa suja e puída que vestia. De qualquer forma, o rapaz não despertava nojo ou repulsa, mas sim pena e compaixão dos habitantes. Em retribuição à hospitalidade recebida o flautista exibia um sorriso pueril e cariado e tocava com vibrante alegria uma canção de agradecimento.
A incansável jornada do menestrel percorreu cada cidade, vilarejo e povoado do reino levando alegria e música a todos os corações. Histórias, não comprovadas, dizem que o bardo foi bem recebido até mesmo nas aldeias habitadas por monstros semi-humanos. Depois de muitos anos de caminhada restava apenas uma única cidade para o flautista visitar: a imponente capital do reino. Quando chegou aos ouvidos do povo que o bardo estava indo para a capital, uma comoção sem precedentes assolou o reino inteiro. Um número incontável de pessoas dos quatros cantos do mundo partiu em direção à cidade que abrigava o castelo do monarca. O próprio regente precisou mobilizar emergencialmente o exército real a fim de minimizar o caos provocado pelos súditos que superlotavam todos os lugares imagináveis da capital. Foi uma situação sem precedentes na história do reino. Parecia que toda a população do reino estava reunia no interior das muralhas de mármore que circundavam a gloriosa cidade esperando ansiosos e impacientes o maior de todos os acontecimentos.
A espera, apesar de longa e ansiosa, não foi em vão. Poucos dias depois da chegada das primeiras comitivas de visitantes, uma tempestade intensa e contínua abateu-se sobre a capital, perdurando por quatro semanas inteiras sem trégua. A noite do 23º dia consecutivo de tormenta foi marcada por uma noite sobrenaturalmente fria, com ventos poderosos espalhando uma chuva cortante e relâmpagos imponentes chicoteando o céu. A população, que mal conseguira dormir, já esperava por mais um dia cinzento e sombrio, mas quando o sol surgiu imponente no horizonte, revelou um céu completamente límpido e cristalino como se tempestade alguma o tivesse maculado. E banhado nos cálidos raios solares surgiu o bardo tocando, em sua flauta, uma doce e alegre canção.
Na multidão que estava à sua espera operou-se uma grande transformação. A expressão de abatimento provocada pelas más acomodações na capital, pela tempestade contínua e pela ansiosa espera, foi substituída por um semblante que mesclava, ao mesmo tempo, alívio, êxtase e felicidade. Apesar das ordens do rei, os soldados e cavaleiros reais não precisaram organizar nenhum cordão de isolamento porque a própria população não se aproximava em
demasia do menestrel temendo atrapalhar a sua exibição. Naquele dia o flautista parecia ainda mais inspirado, tocando e dançando rodeado por lágrimas de alegria, abraços de reconciliamento e beijos apaixonados. Seus olhos esverdeados estavam ainda mais vivos, mais brilhantes chegando a ponto de faiscar. O flautista não comeu, nem bebeu, tocando
continuamente durante o dia inteiro até chegar o momento da derradeira canção.
O bardo parou de tocar e olhou para o céu na direção do poente. Viu metade do sol já oculto sob a linha do horizonte. Neste momento, todas as pessoas que lotavam as ruas, telhados e aposentos da capital, perceberam que estava na hora do bardo se despedir. O rapaz, que não parecia ter envelhecido um ano sequer desde que começou a andar pelo reino, fez uma reverência humilde agradecendo à multidão e esta retribuiu com uma ensurdecedora chuva de aplausos que perdurou até o momento em que o bardo levou a flauta até a boca. O flautista entoou uma nota longa e triste enquanto o público observava em silêncio absoluto. Na medida em que ele continuava a tocar sua melancólica canção, caminhava em direção aos portões da cidade. A multidão, com os olhos rasos d’água, acompanhava imóvel seus passos. Estavam plantados fortemente no chão como se fossem árvores centenárias. Não esboçavam qualquer tipo reação, nem mesmo um singelo aceno de despedida para o bardo que lhes trouxe tanta alegria com a sua música.
A última nota da canção foi entoada no exato momento em que o jovem menestrel atravessou os portões da cidade. Ao terminar a música ficou parado por um tempo de costas para a cidade completamente silenciosa e quase engolfada pela escuridão noturna. Mas quando se preparava para continuar sua caminhada em direção a floresta, foi surpreendido pelo som de um timbre familiar:
─ Habermas! É você mesmo? Como sobreviveu à tragédia de Dumézil? - disse uma
voz rouca e masculina.
O bardo virou-se nos calcanhares com o rosto tomado pela surpresa. Avistou
um homem muito idoso cujos olhos estavam vendados com um trapo imundo e que
abria, com grande dificuldade, caminho por entre as pessoas imóveis como
estátuas. O jovem largou a flauta e correu o mais que pode em direção ao
velho e o abraçou com toda a força que tinha:
─ Althusser! Sou eu mesmo! Sou eu, Habermas! Você é o único que ainda se lembra
de mim no reino inteiro. Eles se esqueceram de mim. Eu me sacrifiquei para
salvá-los e eles se esqueceram de mim… fui esquecido… abandonado….
saquearam minha cidade natal…. mataram meus filhos… profanaram meu
túmulo… ninguém veio ajudar… ninguém voltou para visitar meu sepulcro
depois disso … - falou o jovem, antes de suas palavras serem afogadas
pelas lágrimas grossas de um pranto magoado.
─ Eu compreendo a sua dor meu amigo. Na terrível batalha em que você pereceu fui
privado da minha visão e nem mesmo os feitiços mais poderosos dos antigos
arquimagos e dos mais sábios sacerdotes puderam restaurá-la. A lembrança dos meus dias de glória foi sendo gradativamente apagada das memórias do povo, até que eu me tornasse um velho inválido, digno da pena e caridade alheia – disse serenamente o homem.
O velho cego sustentou o quanto pôde o tenro abraço que confortava seu amigo bardo, mas na mesma velocidade que os derradeiros raios solares eram vencidos pela invencível treva noturna, o corpo do rapaz desfazia-se em uma substância espectral. Althusser soltou um pigarro seco a fim de limpar a garganta e sentenciou, com a voz cravejada de lembranças amarguradas:
─ Nem todos os heróis são lembrados. Até mesmo os grandes heróis são esquecidos.
Uma lágrima incorpórea brotou dos olhos fantasmagóricos, ao ouvir as palavras de seu grande amigo.
Contemplou, pela última vez, a multidão catatônica que observava o diálogo com os olhos vazios e desapareceu para sempre nas profundezas da floresta do reino…