Rodrigo Narcizo (18/02/2008)
1) Cordiais saudações, Marconi Ponte Pereira. Em primeiro lugar obrigado pela sugestão de numeração das partes da argumentação e também pelo excelente comentário que muito enriquece este debate.
Começo o meu comentário discordando de você quando afirma que não se considera um educador. Eu acredito – e sou defensor da idéia – que todos nós somos educadores, uma vez que a educação ocorre em todos os espaços sociais. Obviamente, formação e experiência na área educacional fornecem uma série de subsídios teóricos e práticos para auxiliar a reflexão e a ação educativa, mas de forma alguma considero que a educação tenha que ser debatida somente por professores e pedagogos diplomados. Sua opinião vale tanto quanto a minha, a de Ryff, a de Cavalcanti ou de qualquer outra pessoa. Seu comentário é um exemplo de que qualquer pessoa disposta a pensar sobre o relevante tema da educação pode realizar uma contribuição significativa. Por levantar questões importantes, tomo a liberdade de tecer alguns comentários sobre a sua opinião.
2) Você aponta, com propriedade, um dos paradoxos do método de ensino que utilizamos atualmente, o método simultâneo. É ponto pacífico que cada aluno tem seu próprio ritmo de aprendizagem e desenvolvimento, mas para maximizar o número de alunos atendidos pela escola estabelecemos critérios (como faixa etária e aproveitamento em avaliações) para agrupar estes indivíduos em um mesmo espaço escolar conhecido como turma. Reunir pessoas diferentes na mesma classe escolar e oferece-las a mesma aula não é um problema em si. O problema é quando desconsideramos as particularidades de cada aluno e passamos a achá-los todos iguais no sentido que eles devem aprender igualmente e que todos chegarão ao mesmo lugar ao mesmo tempo, atribuindo ao aluno somente a culpa por seu fracasso, atraso ou desinteresse. É necessário observar as diferenças e trabalhar de maneira individualizada as dificuldades e demandas de cada aluno, mas nem sempre há condições disso ser feito.
3) Acerca da motivação, o aluno não deveria ser movido por notas ou conceitos, mas sim pela vontade de aprender. A metodologia de ensino e a didática influenciam o interesse do aluno, mas despertar a sua consciência é uma tarefa bastante árdua. O trabalho individualizado, conforme sugerido, pode ser uma forma de motivar o aluno, mas normalmente é impossível que um professor que tenha uma (ou mais) turma(s) de 30, 40 alunos consiga atender sozinho cada um de seus alunos. Há áreas na pedagogia, como a orientação educacional, que tem a função de atender os alunos em um escopo mais individualizado, mas não são todas as escolas que dispõe deste serviço e em vários lugares onde existe a orientação, ela - por diversos motivos - não consegue realizar um trabalho efetivo.
4) Ainda sobre a motivação, um dos maiores desafios na educação escolar é encontrar formas de despertar o interesse do aluno e principalmente conscientizá-lo da importância da educação. O interesse é a força-motriz da aprendizagem. O próprio medo da reprovação pode ser – e é – um estímulo para que o aluno estude e tire notas boas (o que não significa, necessariamente, um aprendizado qualitativo), mas isso não é o desejável. O acesso do aluno às diversas áreas de conhecimentos na escola é importantíssimo para a aquisição de conhecimentos, o desenvolvimento e aprimoramento das inteligências e habilidades do educando. Mas este acesso não deve ser confinado à sala de aula: o uso de laboratórios e atividades extracurriculares são fatores que ajudam o aluno a aprender de maneira qualitativa, estimulando o seu interesse.
5) Concordo com a crueldade do sistema que dificulta que o professor aprimore seus conhecimentos e a qualidade de seu trabalho. Mas discordo que o docente precise ter aptidões especiais para exercer bem sua função. Como todo profissional, uma boa formação (básica e continuada) tem a função de, não apenas, “ensinar como fazer”, mas também oferecer ferramentas e subsídios que compensem a carência de aptidões especiais para a função. Claro que certos talentos e habilidades auxiliam o professor em suas tarefas, mas didática e metodologia do ensino são teorias e técnicas que podem ser ensinadas a qualquer pessoa. O professor, neste aspecto, não é muito diferente dos profissionais de outras áreas: sem dedicação, por mais talentoso que seja, ele não desempenhará bem sua atividade profissional. Apesar de extremamente relevante, a formação docente, não é o único fator importante que afeta a qualidade da educação.
6) Você realiza uma observação muito pertinente: a influência do ambiente na educação. Ou melhor, ambientes, pois o plural leva em consideração o espaço físico, social e cultural. Analisar estes ambientes e elaborar um projeto educacional adequado às necessidades da comunidade escolar (que envolve os membros da escola, da família e da comunidade) é essencial como forma de buscar a qualidade do ensino. Este projeto leva o nome de Projeto Político-Pedagógico (P.P.P.). Cada escola deve elaborar o seu de maneira democrática e participativa e a toda a comunidade escolar deve ter acesso ao P.P.P. e acompanhar o seu desenvolvimento e execução. Perceba que o P.P.P. é uma maneira de individualização das ações educativas que leva em consideração, entre outros fatores, os ambientes onde a instituição escolar está inserida (o que pode incluir, mas não se limita á utilização de algum tipo específico de tecnologia ou metodologia educacional), a despeito da escola estar submetida a um mesmo conjunto de regras e procedimentos gerais determinadas pelos gestores da rede de ensino e pela legislação educacional.
7) Discordo que a educação (escolar, faço questão de ressalvar) de excelência seja o resultado de uma adição cuja parcelas recaem, em sua maioria, sobre os ombros dos professores, assim como na aparelhagem pedagógica da escola e no conteúdo a ser ensinado. A fragilidade deste pensamento é achar que a simples reunião destes elementos nos levará automaticamente a este resultado. Na Pedagogia, assim como nas demais ciências humanas, a relação de causa-efeito, por mais aparente que seja, não é uma verdade verificável a qualquer tempo. É preciso analisar as circunstâncias e os contextos e nos questionarmos sempre sobre o que norteia nossas idéias, hipóteses e teorias. Por exemplo, o que é considerada educação de excelência? Por mais estranho que pareça esta não é uma resposta consensual. Há pessoas que atestam a excelência de uma escola pelas altas notas que seus alunos obtêm. Com base neste conceito, ajustam-se as práticas de ensino para a garantia destes resultados.
Mas também há educadores que consideram a educação mais do que conceitos e avaliações classificatórias. Mais importante do que ter um “aluno nota 10” é educar o aluno para que seu desenvolvimento não se limite ao aspecto cognitivo, abrangendo também o desenvolvimento emocional, social, político e crítico. Para que a educação de excelência se concretize nesta perspectiva, é preciso adotar série de procedimentos diferentes da concepção de “excelência verificada por nota”. Em todo caso, eu não consigo conceber “educação [escolar] de excelência” sem a participação efetiva da comunidade escolar de maneira integrada: professores, gestores, corpo pedagógico e administrativo, responsáveis e alunos. Confesso o meu incômodo, quando na ocorrência do fracasso escolar, ao observar cada membro da comunidade escolar culpando o outro pela reprovação de um aluno, sem que cada um deles seja capaz de perceber e refletir sobre a sua parcela responsabilidade neste processo.
9) Finalizando, de forma alguma você deve se culpar pela “impertinência”. Ao contrário, você mencionou algo que, às vezes, até mesmo os maiores doutores e especialistas na área da educação esquecem: que a educação é um ato recíproco. Quando se ensina você também aprende. E o aprendizado pode ocorrer em qualquer lugar, como neste espaço de comentários.