Postado por: Rodrigo Narcizo | Fevereiro 23, 2008

Debate sobre a “inutilidade da educação” [parte 2]

Rodrigo Narcizo (18/02/2008)

1) Cordiais saudações, Marconi Ponte Pereira. Em primeiro lugar obrigado pela sugestão de numeração das partes da argumentação e também pelo excelente comentário que muito enriquece este debate.

Começo o meu comentário discordando de você quando afirma que não se considera um educador. Eu acredito – e sou defensor da idéia – que todos nós somos educadores, uma vez que a educação ocorre em todos os espaços sociais. Obviamente, formação e experiência na área educacional fornecem uma série de subsídios teóricos e práticos para auxiliar a reflexão e a ação educativa, mas de forma alguma considero que a educação tenha que ser debatida somente por professores e pedagogos diplomados. Sua opinião vale tanto quanto a minha, a de Ryff, a de Cavalcanti ou de qualquer outra pessoa. Seu comentário é um exemplo de que qualquer pessoa disposta a pensar sobre o relevante tema da educação pode realizar uma contribuição significativa. Por levantar questões importantes, tomo a liberdade de tecer alguns comentários sobre a sua opinião.

2) Você aponta, com propriedade, um dos paradoxos do método de ensino que utilizamos atualmente, o método simultâneo. É ponto pacífico que cada aluno tem seu próprio ritmo de aprendizagem e desenvolvimento, mas para maximizar o número de alunos atendidos pela escola estabelecemos critérios (como faixa etária e aproveitamento em avaliações) para agrupar estes indivíduos em um mesmo espaço escolar conhecido como turma. Reunir pessoas diferentes na mesma classe escolar e oferece-las a mesma aula não é um problema em si. O problema é quando desconsideramos as particularidades de cada aluno e passamos a achá-los todos iguais no sentido que eles devem aprender igualmente e que todos chegarão ao mesmo lugar ao mesmo tempo, atribuindo ao aluno somente a culpa por seu fracasso, atraso ou desinteresse. É necessário observar as diferenças e trabalhar de maneira individualizada as dificuldades e demandas de cada aluno, mas nem sempre há condições disso ser feito.

3) Acerca da motivação, o aluno não deveria ser movido por notas ou conceitos, mas sim pela vontade de aprender. A metodologia de ensino e a didática influenciam o interesse do aluno, mas despertar a sua consciência é uma tarefa bastante árdua. O trabalho individualizado, conforme sugerido, pode ser uma forma de motivar o aluno, mas normalmente é impossível que um professor que tenha uma (ou mais) turma(s) de 30, 40 alunos consiga atender sozinho cada um de seus alunos. Há áreas na pedagogia, como a orientação educacional, que tem a função de atender os alunos em um escopo mais individualizado, mas não são todas as escolas que dispõe deste serviço e em vários lugares onde existe a orientação, ela - por diversos motivos - não consegue realizar um trabalho efetivo.

4) Ainda sobre a motivação, um dos maiores desafios na educação escolar é encontrar formas de despertar o interesse do aluno e principalmente conscientizá-lo da importância da educação. O interesse é a força-motriz da aprendizagem. O próprio medo da reprovação pode ser – e é – um estímulo para que o aluno estude e tire notas boas (o que não significa, necessariamente, um aprendizado qualitativo), mas isso não é o desejável. O acesso do aluno às diversas áreas de conhecimentos na escola é importantíssimo para a aquisição de conhecimentos, o desenvolvimento e aprimoramento das inteligências e habilidades do educando. Mas este acesso não deve ser confinado à sala de aula: o uso de laboratórios e atividades extracurriculares são fatores que ajudam o aluno a aprender de maneira qualitativa, estimulando o seu interesse.

5) Concordo com a crueldade do sistema que dificulta que o professor aprimore seus conhecimentos e a qualidade de seu trabalho. Mas discordo que o docente precise ter aptidões especiais para exercer bem sua função. Como todo profissional, uma boa formação (básica e continuada) tem a função de, não apenas, “ensinar como fazer”, mas também oferecer ferramentas e subsídios que compensem a carência de aptidões especiais para a função. Claro que certos talentos e habilidades auxiliam o professor em suas tarefas, mas didática e metodologia do ensino são teorias e técnicas  que podem ser ensinadas a qualquer pessoa. O professor, neste aspecto, não é muito diferente dos profissionais de outras áreas: sem dedicação, por mais talentoso que seja, ele não desempenhará bem sua atividade profissional.  Apesar de extremamente relevante, a formação docente, não é o único fator importante que afeta a qualidade da educação.

6) Você realiza uma observação muito pertinente: a influência do ambiente na educação. Ou melhor, ambientes, pois o plural leva em consideração o espaço físico, social e cultural. Analisar estes ambientes e elaborar um projeto educacional adequado às necessidades da comunidade escolar (que envolve os membros da escola, da família e da comunidade) é essencial como forma de buscar a qualidade do ensino. Este projeto leva o nome de Projeto Político-Pedagógico (P.P.P.). Cada escola deve elaborar o seu de maneira democrática e participativa e a toda a comunidade escolar deve ter acesso ao P.P.P. e acompanhar o seu desenvolvimento e execução. Perceba que o P.P.P. é uma maneira de individualização das ações educativas que leva em consideração, entre outros fatores, os ambientes onde a instituição escolar está inserida (o que pode incluir, mas não se limita á utilização de algum tipo específico de tecnologia ou metodologia educacional), a despeito da escola estar submetida a um mesmo conjunto de regras e procedimentos gerais determinadas pelos gestores da rede de ensino e pela legislação educacional.

7) Discordo que a educação (escolar, faço questão de ressalvar) de excelência seja o resultado de uma adição cuja parcelas recaem, em sua maioria, sobre os ombros dos professores, assim como na aparelhagem pedagógica da escola e no conteúdo a ser ensinado. A fragilidade deste pensamento é achar que a simples reunião destes elementos nos levará automaticamente a este resultado. Na Pedagogia, assim como nas demais ciências humanas, a relação de causa-efeito, por mais aparente que seja, não é uma verdade verificável a qualquer tempo. É preciso analisar as circunstâncias e os contextos e nos questionarmos sempre sobre o que norteia nossas idéias, hipóteses e teorias. Por exemplo, o que é considerada educação de excelência? Por mais estranho que pareça esta não é uma resposta consensual. Há pessoas que atestam a excelência de uma escola pelas altas notas que seus alunos obtêm.  Com base neste conceito, ajustam-se as práticas de ensino para a garantia destes resultados.

8) Mas também há educadores que consideram a educação mais do que conceitos e avaliações classificatórias. Mais importante do que ter um “aluno nota 10” é educar o aluno para que seu desenvolvimento não se limite ao aspecto cognitivo, abrangendo também o desenvolvimento emocional, social, político e crítico.  Para que a educação de excelência se concretize nesta perspectiva, é preciso adotar série de procedimentos diferentes da concepção de “excelência verificada por nota”.  Em todo caso, eu não consigo conceber “educação [escolar] de excelência” sem a participação efetiva da comunidade escolar de maneira integrada: professores, gestores, corpo pedagógico e administrativo, responsáveis e alunos. Confesso o meu incômodo, quando na ocorrência do fracasso escolar, ao observar cada membro da comunidade escolar culpando o outro pela reprovação de um aluno, sem que cada um deles seja capaz de perceber e refletir sobre a sua parcela responsabilidade neste processo.

9) Finalizando, de forma alguma você deve se culpar pela “impertinência”. Ao contrário, você mencionou algo que, às vezes, até mesmo os maiores doutores e especialistas na área da educação esquecem: que a educação é um ato recíproco. Quando se ensina você também aprende. E o aprendizado pode ocorrer em qualquer lugar, como neste espaço de comentários.

Respostas

Oi Rodrigo! Tudo bem?
Li o item 6 que estava faltando e gostei bastante. Apesar de não conhecer o PPP, ele é realmente acessado pelos pais, comunidade, etc.?
Existe algum método de divulgação pela instituição ou está disponível para qualquer pessoa? Se eu chegar numa escola e pedir para ver o PPP, eles vão deixar?

No mais, a maioria dos seus posts estão irretocáveis.

Um grande abraço!

Cordiais saudações Marconi.

Comigo está tudo bem. Também espero que esteja tudo bem com você.

O Projeto Político Pedagógico é algo muito importante, mas como a maioria das legislações estaduais e municipais não o exige, muitas escolas não o fazem. Não entanto, várias escolas - públicas e particulares, especialmente as de boa qualidade - possuem Projetos Políticos Pedagógicos.

O acesso ao P.P.P. tem que ser aberto à consulta da comunidade escolar ou de quem estiver interessado em conhecer as diretrizes e procedimentos da escola. Normalmente, quem se recusa a divulgar o P.P.P. é porque não o tem.

Procure na internet que várias escolas disponibilizam o P.P.P. em suas páginas.

Por exemplo, o Colégio Pedro II divulga seu P.P.P na internet: http://www.cp2.g12.br (vá até o final da página em “Legislação Educacional).

O CEFET/RJ também está elaborando um novo P.P.P. neste ano de 2008. O ante-projeto pode ser visto em : http://www.cefet-rj.br

No mais, obrigado pelos elogios e um grande abraço.

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