Postado por: Rodrigo Narcizo | Fevereiro 23, 2008

Debate sobre a “inutilidade da educação” [parte 4]

Cordiais saudações Marconi,

Conforme prometido, eis a minha réplica:

Sem dúvida, o debate está muito legal e bastante produtivo e educativo. Também aprendi coisas novas conversando com você e é isso o que eu acho mais fascinante na educação. Uma pena que o item “6” acabou não saindo na área de comentários, mas eu o colocarei no blog (assim como o resto do debate) para que ele não se perca.

Sobre o(a) meu(minha) professor(a) inesquecível (até a graduação) a minha menção, entre vários deles, vai para a minha professora de Ciências da 7ª e 8ª, Regina. Ironicamente, o conteúdo programático das aulas dela estava repleto daqueles conhecimentos inúteis que o Tito Ryff se refere (como os platelmintos) e ela, à primeira vista, carregava aquele estereotipo de “professora chata e rabugenta”. Ademais, a metodologia de aula dela era no estilo bem tradicional: aulas expositivas apoiadas pelo uso do livro didático e exercícios (mas ela possuía uma didática muito boa, ensinando com clareza pontos que muitas vezes são “aprendidos” com decoreba). E as avaliações dela eram coroadas, no final do ano, com a famosa “prova de 100 perguntas”.

Era uma professora bastante rígida, mas a adorávamos e a respeitávamos muito. Isso decorre do comprometimento profissional dela (não faltava, não se atrasava e cumpria com rigor o conteúdo programático), mas também da postura que ela tinha diante dos alunos. Ressalva-se que ela não era uma docente que “dá ponto” por afinidade ou pedido de aluno e que ela não tinha o pudor de nos repreender com severidade quando necessário. Mas ela sempre conversava conosco (gostava de criticar a programação da televisão e dizer que controla com o rigor o que os filhos dela assistiam) e foi uma grande motivadora. O pensamento generalizado da minha turma de 8ª série era continuar o 2º grau (o termo “Ensino Médio” foi adotado alguns anos depois), se possível, em alguma escola estadual, principalmente por considerar que apenas os alunos de escolas particulares e de cursinhos fossem capazes de conseguir vagas nas melhores escolas federais. E a professora Regina nos incentivou muito para fazermos os concursos de admissão das principais escolas públicas de 2º grau.  Fui o único aluno da minha turma a passar para o CEFET e talvez não tivesse nem tentado fazer prova para lá, se não fosse o incentivo da minha professora.  

Esta experiência como aluno é que me fez questionar sempre os discursos sobre métodos de ensino. Conheço vários profissionais da área de educação que condenam veemente o ensino tradicional, defendendo de forma ferrenha técnicas e metodologias adjetivadas como novas e que substituirão as antigas e ultrapassadas. Esta posição tem três problemas em fundamento: 1º) se você analisar as metodologias e teorias educacionais em perspectiva histórica, será confrontado com a seguinte pergunta: “quão velha é uma nova idéia educacional?”; 2º) Por mais que se tente extirpar o “velho método” ele ainda resistirá em maior ou menor grau nas práticas educativas, logo a substituição completa pode até ser almejada, mas na prática dificilmente conseguida; 3º) a qualidade de ensino não é dependente da metodologia educacional em si, mas sim de uma multiplicidade de fatores, incluindo a forma de como tal metodologia é usada.

Não é incomum encontrar professores com grau elevado de conhecimento e erudição, mas que não conseguem motivar e ensinar bem os conteúdos aos seus alunos. A carência desta “didática” pode ser decorrente da falta de uma formação adequada neste aspecto ou do desinteresse do docente em preparar uma aula adequada de acordo com as características de cada turma (seguindo aquela idéia “se aquela turma de 10 anos atrás aprendeu – leia-se tirou boas notas – então não preciso mudar nada nas minhas aulas. Se a turma está indo mal a culpa é do aluno que não quer estudar”). Note que também há um aspecto histórico-cultural aqui, pois ainda é muito corrente a idéia que uma boa didática é proveniente de um dom inato do professor, não de técnicas que podem – e devem – ser aprimoradas.

Sobre a questão ambiental (que foi a parte do meu comentário que ficou ausente), o seu pensamento é bastante alinhado com o meu ao perceber que há uma multiplicidade de ambientes que afetam os processos educacionais. No mais reitero que o debate aqui foi bastante produtivo e interessante.

Forte abraço.

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