Postado por: Rodrigo Narcizo | Fevereiro 17, 2008

Refletindo sobre a “inutilidade da educação”

Começo a escrever este texto, às vinte e duas horas e cinqüenta e cinco minutos do dia 15 de fevereiro de 2008. E o faço simplesmente pelo incômodo gostoso que nos leva a reflexão e ao debate quando nos deparamos com algo interessante, mesmo que não seja uma opinião de nossa concordância. Navegando pelo imenso mar chamado Internet, durante um intervalo da escrita da minha dissertação de mestrado, deparei-me com o texto “O Pequeno Gênio”, do economista Tito Ryff e publicado no blog de Marcos Cavalcanti . O que realmente atraiu a minha atenção não foi o texto em si, mas sim o título provocativo do post: “A Inutilidade da Educação” e o curioso comentário final: “Que um economista brilhante como o Tito Ryff faça este proposta, não me espanta. O silêncio dos educadores, isto sim, me espanta! Com a palavra, nossos educadores”. Uma vez que fui “convidado” a  expressar minha posição, uma vez que sou pedagogo (e, por conseguinte, educador), decidi interromper momentaneamente minhas obrigações acadêmicas para uma ou outra ponderação sobre o texto de Ryff e os comentários de Cavalcanti.

Em primeiro lugar, é interessante perceber que o texto “Pequeno Gênio” – uma crítica contundente sobre o que o autor considera como currículo absurdo e inútil – é escrito por um economista, não um educador de formação. Adianto-me em esclarecer que não vejo qualquer demérito em um economista escrever um texto sobre a educação e em momento algum passou pela minha cabeça em refutar a opinião de Ryff baseando-me no fato dele não possuir formação em magistério ou em Pedagogia. Proceder dessa forma seria incorrer na terrível falácia do “argumentum ad hominem”. O ponto criticável no texto de Ryff reside no fato de que ele é fundamentado em idéias nutridas no senso comum e que o autor parece reproduz sem muita reflexão: considerar a educação como sinônima de instrução escolar (desconsiderando suas múltiplas dimensões) e possuir uma visão utilitarista da instrução.

A situação de 1993 (época em que o texto foi escrito) não é muito diferente da situação atual no que se refere a crítica de Ryff. Muitas de nossas crianças e jovens das séries e ciclos finais do Ensino Fundamental ainda continuam aprendendo sobre assíndetos, catacreses, platelmintos e tantos outros exemplos do que o autor considera como “o absurdo do ensino que é ministrado às nossas crianças”. Mas será que o aprendizado destes conteúdos é realmente tão absurdo assim?  Para respondermos essa pergunta é preciso conhecer um pouco do funcionamento e da estrutura do nosso ensino.

O sistema de ensino é estruturado de forma que o aluno siga um caminho progressivo de aquisição e aprofundamento de conhecimentos em paralelo com o desenvolvimento de suas habilidades (não é por coincidência que os níveis de ensino são nomeados de maneira hierárquica: Fundamental, Médio e Superior). No desenvolvimento do educando, no que se refere à instrução ao longo de vida escolar, a estrutura dos programas segue uma linha que começa com aspectos mais gerais e básicos e termina ao alcançar os específicos e complexos. O Ensino Fundamental e o Ensino Médio (integrantes do que se chama de Educação Básica) possuem – em nível instrucional – a função de nutrir o educando com o conhecimento dos principais campos do saber, a fim de prosseguir seus estudos em campo especializado no nível superior.  Voltando aos platelmintos, apresentá-lo a um estudante de 13 ou 14 anos é importante para que ele expanda de maneira gradativa seus conhecimentos – no caso, em Biologia – e construa ao longo dos anos uma base mínima que o sustente para o Ensino Superior, se ele assim desejar seguir seus estudos nesta área. Encher a cabeça do aluno com todos os elementos básicos da Biologia no fim do Ensino Médio somente para que ele seja apto a passar no vestibular, ou mesmo deixar esta formação básica somente para o início do Ensino Superior, é contraproducente e ignora que a educação e a aprendizagem são processos.

Quando se propõe a substancial simplificação dos conteúdos programáticos (não faço uso do termo currículo, como Ryff, pois este conceito abrange muito mais do que a “matéria a ser dada”), ignora-se que o sistema de ensino (por mais excludente que seja na prática) tem como um de suas metas a preparação para o ingresso no nível superior, onde todos aqueles conteúdos “inúteis” servem como alicerces para os educandos possam adquirir conhecimentos mais aprofundados e específicos. Além disso, é através do contato com as diferentes áreas de saber na escola, durante a Educação Básica, que o aluno, em vários casos, percebe suas aptidões e escolhe sua área de atuação profissional e de prosseguimento dos estudos. Negar o acesso do aluno aos conhecimentos específicos na escola é negar o seu direito de escolha, prejudicar o desenvolvimento do seu senso crítico e ir a uma direção contrária ao pensamento de democratização da informação e do conhecimento.

Nota-se que normalmente os defensores da simplificação educacional são excessivamente genéricos em suas propostas de “enxugamento das matérias”, dando a impressão que a simples eliminação de conteúdo é suficiente para o alcance da melhoria do ensino. Mas se pararmos para pensar um pouco, tais propostas trazem mais dúvidas do que soluções: Que critérios são adotados para que um dado conteúdo das “noções básicas de história e geografia” seja capaz de “situar [o aluno] adequadamente no mundo em que vive”? Que tipo de conteúdo matemático é essencial ao aluno para ele aprenda na “medida suficiente a raciocinar logicamente”?  E será que o conteúdo de Português deve ser reduzido somente ao necessário para que o aluno apenas escreva com “clareza e correção”?  Tais questões podem ser desdobradas em perguntas mais fundamentais: Como se julga algo como útil ou inútil? O que presta é somente o que se pode fazer uso imediato ou constantemente? Apenas o que é usado imediatamente é que deve ser ensinado?

Enquanto esperamos por respostas a estas questões, retornamos ao ponto em que o economista atribui erroneamente ao currículo (na verdade, conteúdo programático) “complicado” a culpa pela produção dos altos índices de evasão escolar no país. Em primeiro lugar, é uma evidente falha de argumentação traçar uma relação direta de causa-efeito entre a catacrese e o abandono na escola. O aluno não evade a escola apenas por não saber a diferença entre os reinos Monera e Protista. Os fatores que contribuem para a evasão e a repetência escolar englobam diversos aspectos da estrutura do ensino regular, da comunidade escolar e da sociedade. A mera insinuação de que um programa de conteúdos simplificado seria uma medida de combate eficaz ao mal da evasão ou para a obtenção de uma melhoria do ensino, representa o tipo de pensamento que desconsidera a complexidade da educação (reduzindo-a somente ao aspecto instrucional) e que acha – incorretamente – que as causas dos problemas educacionais não possuem relações umas com as outras.  

O adendo de Cavalcanti ao texto de Ryff, sugerindo a inclusão de duas disciplinas (música/cultura e metodologia), inchando assim o currículo simplificado proposto pelo economista, é um exemplo deveras interessante de como é importante que todos nós estejamos munidos de senso crítico e atualização sobre o que acontece no campo educacional. Em um cenário atual onde as palavras interdisciplinaridade e transversalidade estão cada vez mais presentes nos debates educacionais, a idéia de criar mais um compartimento estanque (leia-se, disciplina) chamado metodologia, parece ser um paradoxal apego a um modelo de ensino que tanto se critica. O ato da pesquisa perpassa várias áreas científicas, como a História, a Geografia, a Biologia. Ao invés de ensinar a metodologia de pesquisa de maneira isolada e descontextualizada, é perfeitamente possível – e desejável – trabalha-la de maneira interdisciplinar e integrada as áreas de conhecimento estudadas na escola. Pensamento similar pode ser estendido para a música e outras representações artísticas, cada vez mais presentes nas escolas, na forma de disciplina (a Educação Artística), em atividades curriculares e extracurriculares e projetos dos professores.

Sobre o “silêncio dos educadores”, posso garantir que eles falam, pesquisam, discutem, decidem, produzem discursos e reflexões sobre as teorias e práticas educativas. O silêncio não é feito de palavras que não são ditas. Ele é conseqüência das palavras que não conseguem ser ouvidas. Muitas vezes, nós falamos e ninguém está perto para escutar nossas palavras. Por isso, às vezes, precisamos chegar mais perto para que os outros possam nos ouvir.

 

P.S.: Como estímulo ao debate, recomendo a leitura do ótimo comentário de  Marconi Ponte Pereira sobre o post “a inutilidade da educação” no referido blog de Marcos Cavalcanti.

 

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