Postado por: Rodrigo Narcizo | Janeiro 16, 2008

O Menino Que Mutilava Passarinhos

O inimigo surge diante de mim na forma de uma jovem maltrapilha com a face crispada por uma intensa agonia. Sua perna direita está enfaixada precariamente com trapos imundos e sangra intensamente e ela se locomove com visível dificuldade usando um fuzil enferrujado como muleta. Enquanto grita palavras desesperadas em um idioma incompreensível, ela acena para mim com um pano ensangüentado, que outrora fora branco, com a mão esquerda. Apesar de não compreender a sua estranha linguagem fica evidente a intenção de sua mensagem: um pedido de rendição, uma súplica por misericórdia.

Em resposta, realizo exemplarmente o procedimento exaustivamente repetido em meu treinamento: aponto o fuzil para a desconhecida e miro precisamente em sua cabeça auxiliado pela mira a laser. Um leve toque no gatilho é suficiente para a minha eficiente arma emitir uma curta rajada de projéteis ardentes e penetrantes, esfacelando facilmente o crânio da garota. Com a ponta da minha faca dentada, faço mais uma marca na lateral do meu fuzil, simbolizando a morte de mais um inimigo.

Antes de me aproximar do cadáver, perscruto atenciosamente o ambiente ao meu redor, em busca de inimigos sorrateiros à espreita. Durante o reconhecimento do terreno, percebo assustado que no meio das ruínas da capital inimiga reina soberano um silencio sepulcral e perturbador. Os pesados bombardeiros aéreos cessaram e os combates em terra também. Aparentemente, todos os inimigos pereceram, assim como os meus fieis companheiros que eram homens jovens, íntegros e patriotas. Sou o único sobrevivente da tropa e morrerei se for preciso para esmagar essa escória maldita que ameaça a liberdade e espalha o terror entre os inocentes. Não importa o sexo ou a idade, são todos fanáticos e insensíveis que não têm sequer o direito de serem considerados seres humanos. A moça caída diante de mim é apenas mais um desses malditos não-humanos. Não há nada que a diferencie dos demais inimigos, exceto pelo bordado em sua camisa, onde é possível ler uma palavra totalmente desconhecida para mim e que provavelmente deve ser o seu primeiro nome.

Abandono o cadáver da infeliz no meio de tantos outros mortos e prossigo em minha caminhada pela cidade arruinada em busca de novos inimigos enquanto penso no glorioso retorno à pátria sendo recebido como um herói, com o peito orgulhoso e repleto de medalhas e condecorações. Meus pensamentos são interrompidos quando vejo uma estranha trilha de sangue fresco e asas brancas. Perto dela, várias pombas brancas mutiladas que caminham agonizantes entre ruínas e corpos incompletos. Com extrema cautela sigo o torturante caminho até chegar em sua surpreendente origem.

 

Sentado no chão frio e sujo, está um menino muito magro e muito sujo. Em sua mão esquerda ele segura habilmente uma pequena pomba branca pelas asas enquanto empunha na outra mão uma ameaçadora adaga empapada de sangue. Ele está tão absorto em sua tarefa, que só percebe a minha presença quando emito um grito grave e imperioso.

Apesar da mira laser desenhar um ponto vermelho em sua testa, a criança não demonstra qualquer tipo de medo ou surpresa e responde ao meu grito com uma inocente pergunta feita no meu idioma natal:

─ Soldado, você viu a minha irmã? Ela está ferida na perna direita e foi buscar algo para saciar a minha fome. Você a viu?

A surpresa pelo fato do menino conhecer meu idioma me faz hesitar por um momento, porém logo me recomponho e digo friamente que encontrei uma pessoa compatível com essa descrição morta não faz muito tempo. Neste momento, ele abaixa a cabeça com uma expressão de tristeza tão pungente que quase esqueço que ele é um inimigo. Pergunto a ele se há mais pessoas vivas na cidade e com a voz embargada pelo choro a criança fala baixinho:

─ Não há mais ninguém aqui. Estou sozinho agora que minha irmã morreu.

A resposta dele é como uma brisa refrescante no meio do deserto escaldante. Depois de muitos combates e sofrimento, o fim do conflito está próximo. O menino é o último que restou e, segundo o treinamento, ele é uma ameaça igual aos outros (o fato de mutilar pássaros inofensivos é uma prova irrefutável da sua crueldade), devendo ser executado. Um tiro será suficiente para decretar a prometida vitória da minha pátria e da liberdade sobre a cruel opressão ditatorial inimiga. Preparo a arma para o derradeiro disparo mas sou detido por uma irresistível curiosidade. Com o dedo no gatilho e o ponto vermelho na testa do menino, pergunto porque ele mutila as pombas. Ignorando a morte iminente e ainda sob o efeito da comoção provocada pela perda da irmã, ele responde singelamente:

─ Eu corto as asas para as pombinhas não voarem. Eu fico muito triste quando elas estão no céu e são mortas pelos tiros e pelas bombas, por isso é mais seguro elas ficarem na terra. Mas quando os tiros e as bombas acabarem, as asas das pombinhas vão crescer de novo e elas voltarão para o céu.

As palavras daquela criança me tocaram tão profundamente que deixo o fuzil cair aos meus pés. Ao pegá-lo, percebo que não consigo levantá-lo devido ao peso incomensurável das muitas mortes contabilizadas nos traços que eu fizera à faca. Olho ao redor novamente e apesar dos meus olhos estarem embaçados com amargas lágrimas de arrependimento, vejo claramente a horrível face dessa coisa que chamamos de guerra.

Ajoelho humildemente diante da criança e vejo a faca sangrenta em sua mão direita. Retiro de um dos bolsos do uniforme um pedaço de ração de sobrevivência e ofereço gentilmente ao menino, que devora avidamente o alimento, se esquecendo da arma. Enquanto ele come, eu cavo com as mãos uma pequena sepultura e enterro a lâmina que ele segurava junto com um par de asas brancas.

Após a refeição, ele olha para mim com olhos brilhantes e esperançosos:

─ Vai demorar muito para as bombas e os tiros acabarem?

Emocionado, eu respondo quase sussurrando:

─ Já acabaram. As pombas já podem voltar para o céu.

Ao ouvir essas palavras, o menino sorri radiante e segura a pequena pomba entre as mãos em concha:

─ Essa é a única pombinha que eu não tinha cortado as asas. Ainda bem, não é? Agora ela poderá ser a primeira a voar. Antes de soltá-la, darei um nome a ela. Será o mesmo nome da minha irmã. Seu nome será Paz.

E com um movimento ascendente, a criança arremessa a pomba branca que, apesar da juventude, voa célere e feliz pelo céu em direção ao horizonte.

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