Postado por: Rodrigo Narcizo | Dezembro 21, 2007

Crepúsculo Eterno

 

Enquanto o sol, em sua resplandecente magnificência, precipita-se mortalmente atrás do horizonte, observo inquieto o azul celeste no ponto cardeal oposto que, abandonado pelos calorosos raios solares, torna-se cada vez mais frio e enegrecido.

Após constatar, resignado, que o cruzeiro do sul cintila impassível sob o marco austral, abaixo os olhos marejados de lágrimas e observo atentamente a delicada face da minha doce amada que dorme placidamente em meu colo.

Uma de suas mãos repousa imóvel sobre o lado esquerdo do peito, mais precisamente próximo do coração, como se tentasse involuntariamente proteger o local de meus olhares. Tomado por uma curiosidade implacável, seguro sua mão com extremo cuidado e a coloco lentamente sobre o ventre, assegurando dessa forma a visão do seio esquerdo parcialmente descoberto.

Neste momento sou assaltado por uma lembrança tão terrível, que até as mais valentes feras da região se calam em reverência ao grito lamurioso e dilacerante que provém das profundezas inomináveis da minha combalida alma.

Uma lágrima cáustica e torturante escorre pela minha face calejada, encontrando seu descanso nos lábios secos e rachados da minha amada, que apesar de todo o barulho causado pela perda da minha razão, prossegue em seu sono intocado.

A fim de evitar que a insânia derrote por completo a minha força de vontade, fecho os olhos por um longo momento enquanto acaricio os cabelos longos e sedosos da jovem e canto baixinho em seu ouvido esquerdo uma triste canção de minha própria autoria. A melodia empobrecida pelos versos sem métrica e rima encontra em minha doce amada a sua única apreciadora.

Incontáveis foram as vezes que cantei esta música. Parece-me, ao mesmo tempo, incrivelmente antiga e perturbadoramente recente. As vias respiratórias obstruídas pelo breve pranto são limpas por meio de uma profunda inspiração e um pigarro seco amacia a voz rouca e grave que embargada pela desesperança sai com visível dificuldade.

Jamais esquecerei do belíssimo crepúsculo

Que marcou de maneira definitiva as nossas vidas.

É inesquecível a sua súplica silenciosa

Desejando em segredo a minha morte

Para que eu jamais a abandonasse.

Em seus olhos febris era possível vislumbrar

A destrutiva chama da paixão e da loucura

Que ardia com tamanha intensidade

Fazendo sua boca proferir uma abominável maldição.

E sob a afiada borda da lua minguante

Seu coração partiu-se em dois pedaços

Quando pela última vez sorvi o amor puro de seus lábios

E naquele derradeiro momento de intimidade

O aço frio da minha espada apagou o fogo vil da sua insanidade.

Seu corpo inerte tombou aos meus pés,

Com um sorriso ensangüentado em sua serena face.

E em respeito a sua última vontade, permaneci ao seu lado

Até o término de sua delirante agonia.

Mas arrependo-me amargamente deste hediondo ato

E se soubesse de sua funesta conseqüência, amor,

Jamais o teria executado.

Pois desde aquele fim de tarde, há cinqüenta anos atrás,

Não existe mais dia ou noite para mim,

Pois pela força do seu doentio, amor, estou aprisionado

Neste crepúsculo interminável ao lado de seu sereno cadáver.

Você disse que nosso amor viveria para sempre

Mas apenas este crepúsculo é eterno.

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